Nós, os palindromistas, somos ínfimos. Quer dizer, num planeta com 7 bilhões de não-palindromistas,reles eraros. Até entre os 211 milhões no paíssomos gatos pingados: não ultrapassamos os 0,00003%(acredite no percentual, fiz o cálculo).
Nessa densidade rarefeita de palindromistas, tudo sempre foi esparso e escasso: interlocutores, encontros, matérias na mídia, publicações. Isso ao longo de décadas que parecem séculos. Aí, em 35 anos, três eclosões palindrômicas: uma ao redor do Pasquim em julho/1986;outra no Twitter emplena pandemia; e agora, junho/2021, um inesperado boom editorial.



Ao palindromar o perecível, a breve sobrevida dos fatos, Cambraia dá a cada notícia levada pela maré dos nossos tempos uma âncora memorável. E Brombal, por se ater ao perene, eterniza temas e assuntos em versos palindrômicos que arrebatam.
Cambraia, comentarista prolífico sobre tudo, parece um gêiser do palavreado, que jorra palíndromos a curtos intervalos, incessante e sempre interessante. Brombal é como um vulcão adormecido: de tempos em tempos desperta com erupções poéticas a deslumbrar o olho, a maravilhar leitores com o fervilhar de ideias.

Cambraia usa um potente e amplo radar, a rastrear manchetes do cotidiano, quase sem perder nenhuma. Seus palíndromos formam uma compilação documental relevante, com ressonância histórica. Brombal possui uma lupa graduada para a minúcia, o detalhe acurado, focada na delicadeza e no inefável, manipulada em direção à surpresa e o encantamento.

Enfim, enquanto Cambraia relêcom frenesi a histeria da realidade nacional e mundial minuto a minuto, Brombal prefere o remanso poético, a artesania linguística, a paixão semântica, o gozo semiótico.



*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial