Traduzo aqui alguns textos do Papeles inesperados, livro tirado literalmente de um baú, onde se encontraram textos de várias épocas, vários gêneros, que saíram em jornais e revistas ou que simplesmente permaneceram inéditos. A edição foi organizada pela primeira mulher de Cortázar, Aurora Bernárdes, e Carles Álvarez Garriga. Parte do livro me pareceu dispensável, mas o resto é o velho Cortázar no melhor de sua forma.
Peripécias da água
Basta conhecê-la um pouco para compreender que a água está cansada de ser um líquido. A prova é que mal tem a chance se transforma em gelo ou em vapor, mas isso também não a satisfaz; o vapor se perde em divagações absurdas e o gelo é lerdo e tosco, se planta onde pode e em geral só serve para dar vivacidade aos pinguins e aos gin and tonic. Por isso a água escolhe delicadamente a neve, que a alenta em sua mais secreta esperança, a de fixar para si mesma as formas de tudo o que não é água, as casas, os campos, as montanhas, as árvores.
Penso que deveríamos ajudar a neve em sua reiterada mas efêmera batalha, e que para isso haveria que escolher uma árvore nevada, um negro esqueleto sobre cujos braços incontáveis baixa para se estabelecer a branca réplica perfeita. Não é fácil, mas se, prevendo a nevada, serrássemos o tronco de maneira que a árvore se mantivesse de pé sem saber que já está morta, como o mandarim memoravelmente decapitado por um verdugo sutil, bastaria esperar que a neve repetisse a árvore em todos os seus detalhes e então retirá-la a um lado sem a menor sacudida, num deslocamento leve e perfeito.
Não acho que a gravidade desfizesse o alvo castelo de cartas, tudo aconteceria como numa suspensão do vulgar e do rotineiro; num tempo indefinível, uma árvore de neve sustentaria o sonho realizado da água. Talvez coubesse a um pássaro destruí-lo, ou o primeiro sol da manhã o empurrasse para o nada com um dedo morno. São experiências que se deveria tentar para que a água fique contente e volte a nos encher jarras e copos com essa alegria ofegante que por ora somente guarda para as crianças e os pardais.
Sequências
Deixou de ler o conto no ponto onde um personagem deixava de ler o conto no lugar onde um personagem deixava de ler e se encaminhava para a casa onde alguém que o esperava havia começado a ler um conto para matar o tempo e chegava ao lugar onde um personagem deixava de ler e se encaminhava para a casa onde alguém que o esperava havia começado a ler um conto para matar o tempo.
A fé no Terceiro Mundo
Às oito da manhã o padre Duncan, o padre Heriberto e o padre Luis começam a inflar o templo, quer dizer que estão à margem de um rio ou numa clareira da selva ou em qualquer aldeia quanto mais tropical melhor, e com ajuda da bomba instalada no caminhão começam a inflar o templo enquanto os índios dos arredores contemplam-nos de longe e talvez estupefatos porque o templo que no começo era como uma bexiga amassada começa a se aprumar, se arredonda, se estufa, no alto aparecem três janelinhas de plástico colorido que vêm a ser os vitrais do templo, e por fim salta uma cruz no ponto mais alto e pronto, plop, hosana, soa a buzina do caminhão na falta de sino, os índios se aproximam assombrados e respeitosos e o padre Duncan os incita a entrar enquanto o padre Luis e o Padre Heriberto os empurram para que não mudem de ideia, de maneira que o serviço começa mal o padre Heriberto instala a mesinha do altar e dois ou três adornos com muitas cores que portanto têm que ser extremamente santos, e o padre Duncan canta um cântico que os índios acham extremamente parecido com os balidos de suas cabras quando um puma anda perto, e tudo isso acontece dentro de uma atmosfera extremamente mística e uma nuvem de mosquitos atraídos pela novidade do templo, e dura até que um indiozinho que se chateia começa a brincar com a parede do templo, quer dizer que simplesmente crava nele um ferro para ver como é isso que se infla e obtém exatamente o contrário, o templo se desinfla precipitadamente e na confusão todo mundo se amontoa procurando a saída e o templo os envolve, os esmaga, os cobre sem lhes causar dano algum, claro, mas criando uma confusão nada propícia à doutrina, ainda mais quando os índios têm ampla oportunidade de escutar a chuva de porras e caralhos que distribuem os padres Heriberto e Luis enquanto se debatem debaixo do templo em busca da saída.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial