Ela se chama Julinha Zoraide. Nome grande, para metro e meio de pessoa. Nome pequeno para uma alma tão grande e generosa. Pena que foi embora poucos dias antes deste 5 de agosto, seu aniversário. Logo ela, festeira de primeira, sempre pronta para vestir um adereço com brilho, brilho, aliás, que não seria jamais páreo pros olhos e pro sorriso que ela tinha. Tem. Terá.
Nascer mulher, em 1925, nos interiô da Serra gaúcha, não era pouca coisa. Que o digam suas contemporâneas, a maioria ainda expert nas difíceis lidas de forno, fogão, fraldas (não esqueçamos que estas peças no modelo descartável são coisa muiiiito nova), mamadeiras, marido exigente, etc. Mas a pequena teimosa foi além. Além de professora, profissão “normal” para as garotas da época, formou-se advogada. Em tempo: antes de lecionar português, foi profe de francês, bien sûr!
Mas a vida da Zô, contada com maestria, está na matéria que o Ademar Vargas de Freitas fez para o Jornal da Ufrgs, tem alguns anos. Eu quero falar da Zô que eu conheci, como mãe do meu amigo querido Nilton Filho, no teatro dele, juntinho a casa em que ela viveu, no Menino Deus. Esta é a Zô que vou levar memória afora, com aquele carinho que a admiração cultiva. A mulher culta, espirituosa, que tinha sempre uma quadra, um pedaço de poesia, uma citação bacana para dedicar aos afetos, com a espontaneidade dos que usam este dom para acrescentar, elogiar, ressaltar o positivo no outro.
Fui lá, me despedir da Zô, vestida com vermelho e brilho, sorridente, as mãos de criança segurando flores. Danada, esta Zô! O povo todo que foi dar um adeusinho pra ela, numa das noites mais frias destes pagos, parecia estar numa animada estréia de teatro, apesar dos olhos úmidos e dos abraços longos confirmarem que, sim, era um encontro de despedida.
E agora, fica a saudade. Esta não-presença física que vai incomodando com o avanço dos dias até que, um dia, estaciona e confunde a cabeça da gente com falsas lembranças, verdades atrapalhadas pela emoção, invenções do coração pra gente poder não se perder das bem-querenças que se vão, inexoravelmente.
Hoje é aniversário da Zô, que esteve presente em tantos bons momentos da minha vida, que me telefonava cheia de gentilezas, que me deixou basbaque quando pegou o avião e foi, sozinha, não faz muito, para a Polônia, confiando em seus conhecimentos de Esperanto e nos laços que ela construíra através do aprendizado e do ensino desta para mim ainda estranha língua. A última vez que a vi, ela estava sentada, vestida como uma princesa eslava que um dia foi em outra vida, recebendo convidados ao aniversário do teatro em que ela era presença constante, na primeira fila, puxando aplausos, espalhando entusiasmo. E é assim que quero lembrar da minha amiga, sempre.
