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Paradinha

No futebol, a parada que o jogador dá ao bater um pênalti é considerada infração. O jogador terá que repetir a cobrança. A parada …

No futebol, a parada que o jogador dá ao bater um pênalti é considerada infração. O jogador terá que repetir a cobrança. A parada é considerada infração porque permite ao jogador antever para que lado o goleiro irá se jogar.

Seria tão bom se, na vida, pudéssemos ter esta paradinha do futebol(e o resultado dela), não é mesmo? Estou indeciso: não sei se aceito ou não aquele convite para um novo emprego. Dou uma paradinha e fico vendo como seria, como a empresa evoluiu, se meu desempenho seria bom ou não. Não sei se caso: dou uma paradinha e fico vendo. Olha só, ia ser uma esposa maravilhosa. Ou, que bela porcaria de casamento eu ia fazendo. Não ia ser incrível?

Não temos esta prerrogativa(nós, os humanos). Temos que experimentar. Só a experimentação pode confirmar ou não nossas expectativas quanto às decisões que tomamos. Claro que há os indicativos. Sentimos que se formos em determnada direção, as coisas não caminharão bem. Às vezes, porém, isto não é suficiente para que tomemos a decisão em sentido contrário: motivações inconscientes, a pressão a que estamos submetidos ou as circunstâncias nos impelem a decidir por algo que causará prejuízo, mesmo que tenhamos informações suficientes para não ir no sentido do erro. Exemplo: oferta de emprego. Bom salário. Boa empresa. Examinamos mais. Vê-se que a função para a qual fomos convidados não está alinhada ao nosso perfil. Ou: o turn over da empresa é altíssimo, indicando que a chefia imediata é de difícil relacionamento. Ainda assim, pressionados pelo ambiente externo(“você não pode perder esta oportunidade!”), aceitamos a proposta. Em 6 meses, estamos saindo da empresa.

Há outra paradinha, porém, que é indispensável. A do final do ano. Revemos o ano que passou, tudo o que aconteceu de bom e de ruim, as decisões tomadas, as perdas e os ganhos. Fazemos um balanço e tomamos decisões para colocar em prática a partir de 1º de janeiro(em tese, pois há as famosas resoluções de final de ano que não chegam sequer a fevereiro). E por que paramos para refletir só no dia 31 de dezembro? A única explicação é cultural. Assim como é cultural darmos presentes no dia 25 de dezembro. A virada do dia 31 de dezembro para o dia primeiro de janeiro é associada a uma grande mudança, ao início de uma nova etapa. Sai o ano em curso, velhinho e cansado, e entra o ano novo, um bebezinho saudável e risonho. Não há nenhuma outra razão para que só paremos para refletir no dia 31.

Porém, a reflexão e a inteligência são o que nos diferencia dos animais(embora, no trânsito, vejamos muitas vezes pessoas agindo como animais). Assim, pensar que só paramos uma vez por ano para fazer um uso mais profundo da nossa maior capacidade humana é mostrar o quanto ainda falta para podermos evoluir. Assim, convido os leitores desta coluna a darem uma “parada de meio de ano”. Estamos próximos do final do mês de julho, o que dá aproximadamente a metade do ano(um pouco mais da metade). Proponho que, num final de semana, os leitores parem e reflitam: o que estou fazendo com o ano de 2004? O que foi bom até aqui? O que foi ruim? Que perdas eu tive? E quais os ganhos? Onde posso melhorar? Dar duas paradinhas para reflexão seria dobrar o número de vezes que fazemos isto. E este pouco já seria fantástico. Isto talvez faça com que o velhinho que simbolizará o final de 2004, no dia 31 de dezembro, não esteja tão cansado. E talvez nem tão velhinho. E, mais do que ele, nós. Estaremos, ao fazer esta “parada de meio de ano”, antevendo situações, corrigindo rumos e evitando (mais) cabelos brancos.

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Autor

Flavio Paiva

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