Um escritor bastante conhecido, ao ouvir uma crítica, sofreu uma elevação de temperatura no sangue que o levou a apontar um longo dedo indicador e a dizer com voz desafinada: “Respeite minhas barbas brancas”. O mais engraçado é que o crítico tinha mais ou menos a mesma idade dele.
Se o escritor fosse mais vaidoso ainda e invocasse respeito pelas “minhas barbas brancas pintadas de acaju”? Ou se o escritor esse tivesse barba preta, mas ostentasse uma linda careca, será que teria o mesmo impacto gritar: “Respeite a minha calva”? Mas, se, além da barba preta, tivesse umas melenas dignas dos anos sessenta, o que poderia alegar? Certamente, não teria o mesmo efeito apenas mencionar a idade. Falta a imagem literária, não? Restam então as rugas, a osteoporose, a cada vez mais baixa produção de espermatozoides e a ponte de safena.
Fiquei matutando — eu que ostento uma barba branca há mais tempo que o escritor esse. Se a cor das barbas fosse um argumento válido, vários nazistas teriam livrado a cara e os políticos brasileiros poderiam mandar alguns fios arrancados do queixo para análise do STF. Querem mais? Todos os pedófilos seriam inocentes.
Há muitos escritores talentosos que são pessoas muito chatas, ou canalhas. Também há muitos escritores medíocres que são ótimas pessoas, honestas, simpáticas, divertidas. Como é que fica a questão do respeito nesses casos?
Só sei de mim. Eu prefiro minha parte em dinheiro.
Erros de tradução
Andei trocando uns bilhetes com o Mário de Almeida sobre erros de tradução. Eu os coleciono — não só dos outros, meus também. Aí tive a ideia desta notinha: uma história usando alguns dos erros que me divertiram mais. Atenção, todos foram encontrados em livros publicados por grandes editoras.
“Depois do almoço me deu uma moleza. Bocejei e me alonguei, mas resisti à sesta e desci para o sótão, onde encontrei a empregada, uma margeadora com ares de madame. Pensei: fico ou não? Porque a empregada gemia, dando o seu melhor com uma disposição que minha mulher já não tem. Me senti indeciso como uma vaca boba. Por fim resolvi subir do sótão e matei o tempo lendo um cotidiano de grande circulação, na sala. Aí meu filho me pediu para moderar a guitarra. Bocejei de novo, me alonguei de novo e saí para a rua com meu passo gingão. Diante da casa, ao lado do terreno desrelvado, estava estacionada uma lacraia conversível. Seria descapotável em Portugal, pensei distraído e me alonguei outra vez.”
Historinha de verão
Farol de Santa Marta. Vinha um grupo pela praia. Dizer que era de noite é importante, porque, sem eletricidade naquele tempo, era necessário decorar todo buraco, toda pedra. Uma garota disse:
— Esperem aí. Vou fazer xixi atrás daquela moita.
A garota se agachou e a moita se levantou. Era uma vaca. Moral da história: se fosse um homem, a garota não tinha molhado as calças. A única vantagem dos homens sobre as mulheres, comprovada pela ciência, é fazer xixi de pé.
Dúvidas da melhor idade
O que é melhor? Ser careca ou pintar os cabelos de acaju?

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