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Pelas beiradas

Por Flavio Paiva

Comer pelas beiradas é uma coisa que ouvimos desde cedo. Nossos pais, tios, avós ou quem toma conta de nós nos ensina: um prato de mingau (ou qualquer creme), por exemplo. Se pegarmos do meio do prato, a comida estará bem mais quente, a ponto de queimar a língua. Comer pelas beiradas nesse caso é atitude defensiva, digamos. Mas que é fácil aprender, porque é pela dor. Então, aprendemos rápido. Porque o aprendizado mais eficiente e inesquecível é pela dor. Não estou dizendo que é o mais agradável, mas sem dúvida que é o mais eficiente. Uma lição da infância, todo mundo acaba aprendendo, em tempos de guerra ou paz, de pandemia ou não.

Já “comer pelas beiradas” pode ter outro uso. Pode ser em uma situação de trabalho, pessoal ou mais especificamente amorosa em que se quer atingir determinado alvo, objetivo, mas se acredita que se for muito direto vá por tudo a perder. Então, se vai cercando, avançando aos poucos. Provavelmente pela semelhança a um prato de creme quente, se eu for direto ao centro, acabo me queimando. Então, melhor comer pelas beiradas. Quer atingir um objetivo profissional, seja negociar um contrato, pedir um aumento de remuneração, promoção ou coisas assim, às vezes é melhor ir aos poucos. Ir conversando com calma. Avançando um pouco mais lentamente para ter sucesso e atingir o objetivo. Na vida amorosa, às vezes acontece o mesmo (embora no caso de homens com mulheres, entre uma variável diferente, que é o fato de os homens não saberem em muitos momentos decifrar sinais das mulheres. Jogou o cabelo para o lado? Está a fim de mim!): indo devagar, avançando aos poucos, até atingir a conquista. Especificamente na vida amorosa isso pode não ser a melhor alternativa, por outro lado. Porque há mulheres que preferem homens com atitude e mais diretos. 

Existe ainda uma terceira possibilidade do comer pelas beiradas: medo. O sujeito se acovarda e vai devagar, comendo pelas beiradas. Mas não avança. Não objetiva, justamente porque está com medo. E fica só dando voltas nas beiradas. Até que a outra parte cansa e manda passear. A terceira hipótese portanto, é a pior de todas e quase desprezível. Mas não, porque podem existir inúmeras razões para uma pessoa sentir medo. Ou pode ser só covardia mesmo.

Existia uma expressão que se usava bastante há muitos anos atrás, que era que a pessoa estava “fazendo uma conversa de cerca Lourenço “, que infelizmente eu vou ficar devendo aos leitores a etimologia da expressão, mas basicamente era comer pelas beiradas, mas com uma dose de malemolência, de malandragem. Como muitas expressões, caiu em desuso. Claro que muitos leitores podem reconhecer, ou relembrar. Mas esta foi direto do túnel do tempo. 

E então, ser direto ou ir comendo pelas beiradas? Depende. Depende muito das circunstâncias e objetivos. Do contexto. Como sempre, é preciso analisar com calma e sabedoria, mas sem medo. Para ver se o caso é de comer pelas beiradas ou fazer um ataque direto. Quem já passou por 8ma situação de comer pelas beiradas? Me conte em [email protected].

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Flavio Paiva

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