Mal saiu, o romance de Ricardo Piglia faturou o prêmio Crítica, da Associação Espanhola de Críticos Literários, o venezuelano Rómulo Gallegos e o Hemmett da Associação Internacional de Escritores Policiais. Com isso, faturou também uma boa bufunfa. Assim, eu começar a falar mal pode parecer que estou roxo ou verde de inveja — me desculpem a imprecisão.
Piglia, com seu livro anterior, “Plata quemada”, ganhou o prêmio da editora Planeta: 40 mil dólares. É o seguinte: Piglia tinha o romance contratado com a Planeta; Piglia tinha uma dívida com a editora, tanto que recebeu o prêmio apenas de faz de conta; a única jurada que se manifestou disse que jamais chegou às suas mãos “El amor enfermo”, de Gustavo Nielsen, um dos dez finalistas (que entrou na justiça contra a corja toda e ganhou); o presidente do júri era Guillermo Schavelzon, gerente da editora, organizador do prêmio e agente de Piglia; um ano antes, Miguel Delibes e Ernesto Sábato renunciaram de antemão a esse mesmo prêmio, denunciando que tinham oferecido a vitória a eles. Piglia não foi triturado pela imprensa por participar de uma jogada dessas porque é muito bem relacionado e queridinho de boa parte da crítica.
Pelo menos “Plata quemada” é um bom livro. Não acontece o mesmo com “Blanco nocturno”, romance chato, convencional e com uma trama sem pé nem cabeça. Pra completar, traz uma série de notas de pé de página que pode ser definida com apenas uma palavra: bisonha.
Convenção
Alguém chega num lugar. O lugar é descrito. Depois as pessoas. Só então começa a ação. Se isso, num romance do século 19, já enchia o saco do mais paciente, que se pode dizer agora? Pior, Piglia é um autor metido a moderno. Mesmo assim, isso não é motivo suficiente pra irritar um leitor como eu. Chandler muitas vezes faz exatamente assim e eu adoro. Talvez seja porque Chandler é tão engraçado e corrosivo que deixa as convenções que usa em farrapos. Nesse livro, Piglia parece apenas inábil. Mais: espicha uma história curtinha, o modo mais fácil de ser chato.
Trama
Um sujeito aparece numa cidadezinha pra trazer cem mil dólares e salvar a fábrica de outro. Fica um monte de tempo. Não entrega o dinheiro. É assassinado. O assassino não leva o dinheiro, deixa escondido no hotel. Me parece lógico que, se foi morto pelo dono da grana, ela teria sido levada. Se foi morto por quem não quer que a fábrica seja salva, teria sido levada também, pra simular um roubo e não deixar que caísse nas mãos do dono. Sem falar que cem mil dólares são atraentes por si mesmos.
Quem matou? A polícia diz que foi um jóquei, que se mata depois, deixando uma confissão assinada. Por quê? Pra comprar um cavalo que ama. Quem o pagou? Talvez os que desejavam fechar a fábrica. O promotor diz que foi um crime passional. Com o dinheiro escondido no hotel, isso faz sentido, já que o suspeito trabalha ali. Mas o que a justiça faz, numa situação dessas, digo com alguém confessando um crime (e com provas de que recebeu o pagamento) e outro acusado jurando inocência? Pois não é que o promotor prefere acusar o que jura inocência?
Querem fechar a fábrica porque há uma grande jogada imobiliária por trás. O promotor faz parte dela. Quando o sujeito da fábrica reclama os cem mil dólares, o promotor faz a seguinte proposta (em público): pode levar a grana se admitir que o crime foi passional, que, enfim, o culpado é quem jura inocência. Como um julgamento pode depender da opinião de uma pessoa qualquer, que não é testemunha, nem é nada? E como é que fica a famosa especulação imobiliária? É preciso ser imbecil pra engolir isso.
Aí vem o seu Piglia e os críticos que acreditam nele e falam de aparências, da inescrutável obscuridade da realidade. Ora, vão tomar banho. A realidade é mesmo dúbia, complicada, o escambau. Mas um bom livro tem de dar fatos, fatos que possam ser interpretados de várias formas, fatos que nos deixem em dúvida sobre as motivações, que multipliquem nossas suspeitas. Uma trama desconexa é outra coisa. Leiam Kafka. Ele dá um fato e uma interpretação perfeitamente lógica para ele. Em seguida, outro personagem dá outra. Depois, outro dá outra. Todas são verossímeis. Isso é grande literatura. Piglia empilha umas contradições idiotas, uns raciocínios esfarrapados e espera que a gente pense que a falta de sentido é profundidade.

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