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Pirilampices da justiça

Como se sabe, a poesia anda em baixa há muito tempo. Na verdade, o desprestígio é tão grande que os poetas, se insistem em …

Como se sabe, a poesia anda em baixa há muito tempo. Na verdade, o desprestígio é tão grande que os poetas, se insistem em aparecer, são vistos como esses loucos que anunciam o fim do mundo pelas esquinas, ou como os antigos vendedores de enciclopédias, ou ainda como essas pessoas que distribuem panfletos preocupadas com nossa vida eterna, quando nós nos preocupamos no máximo com nossa vida noturna. Mas fatos são fatos: a poesia se agita no fundo do sangue de todos, à espreita do menor cochilo pra saltar aqui pra fora e soltar a franga. Outra coisa, muito interessante e reveladora, é que justamente as pessoas que nunca leram poesia (ou leram meia dúzia de estrofes), nem têm a menor noção do que se trata, são as que mais caem em tentação.

Fiquei pensando nessas coisas ao ler sobre a posse de Ayres Britto no Supremo Tribunal Federal. Como eu gostaria de ter talento e informações suficientes para escrever um conto a respeito. Sintam a cena.

Depois de todo o bate-boca — acusações de incompetência e corrupção, amostras grátis de autoritarismo e corporativismo, distorções deslavadas dos fatos —, chegou o dia da posse do novo presidente da instituição. Era de se esperar uma cerimônia discreta, comedida, por causa da ressaca do constrangimento dos dias anteriores e pela dignidade que o Supremo deveria ao menos aparentar. Mas não é que a coisa começou com a Daniela Mercury cantando o Hino Nacional? Ainda bem que não tropeçou na letra como a Vanusa.

A coitada deve andar precisando de grana, porque não parou por aí. Em seguida recitou um poema de Ayres Britto, em que, lá pelas tantas, o juiz e vate afirma: “Não sou como camaleão que busca lençóis em plena luz do dia. Sou como pirilampo que, na mais densa noite, se anuncia”.

Mas o entusiasmo poético de Ayres Britto continuou se anunciando na densa e carnavalesca noite brasileira. No seu discurso de posse, entre muitas metáforas, disparou esta: “A silhueta da verdade só assenta em vestidos transparentes”. Não vi o vídeo, mas imagino que nesse ponto o ministro pirilampo tenha feito uma pausa e olhado os colegas, para sentir a estupefação e a inveja deles. Talvez tenha piscado o olho para algum mais íntimo, que comunga com ele o amor pela literatura.

Pragas literárias

Duas pragas que assolam os homens públicos no Brasil são a mania de falar difícil e a de falar bonito. Não precisa ser muito esperto pra descobrir que se fala difícil para parecer que se fala de coisas muito profundas, muito complexas, que você, um ignorante de pai e mãe, não pode entender mesmo. O sonho de quem fala difícil é incorporar um cientista discorrendo sobre física quântica e se sentir levitando a uns vinte centímetros. Também não precisa ser muito esperto pra perceber que o que os homens públicos consideram falar bonito é de um mau gosto sem remissão. Ofuscados pela própria vaidade, acreditam piamente no poder dos adjetivos e que uma metáfora é boa apenas pelo fato de ser metáfora. Ayres Britto não devia ser presidente do Supremo Tribunal Federal. Devia voltar pros bancos da escola.

Tempos de editor

Nos meus tempos de editor, felizmente curtos, me entregaram o romance de um político. Eu devia deixar o texto o mais aceitável possível. Lembro de uma cena, que começava mais ou menos assim: “O dia começou a entrar no portal da noite, passo a passo sumindo nas sombras inexoráveis”. Isso continuava por mais umas sessenta linhas. Fiz um xis sobre o parágrafo e anotei: “Anoiteceu”. O autor, ao se deparar com minha sugestão, estrilou: “Pô, mas assim você me fode o estilo”.

A cópia copidescada por mim foi perdida na gráfica. Como não havia mais tempo, o romance foi publicado com o texto original. O autor deve ter o santo muito forte.

Velho testamento

No princípio era o verbo? No fim também.

Autor

Ernani Ssó

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