Vi muita gente se deixar levar pela indignação e pedir a eliminação, pura e simples, dos políticos que estão aí. Com políticos novos — em geral, com uma ressalva: que sejam gente como a gente — as coisas melhorariam. Tenho minhas dúvidas. Trata-se da mesma medida adotada por Deus nos tempos do Velho Testamento: com um dilúvio providencial, acabou com os pecadores, salvando apenas a família Noé para começar tudo de novo. Se tivesse dado certo, não estaríamos aqui reclamando de políticos corruptos, confere?
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Certo, a política, como uma carniça, atrai hienas, urubus e moscas de todos os tamanhos e cores, mas me parece bobo considerá-la um ente que se materializou no ar pela força do pensamento positivo do diabo. Ela é uma atividade nascida dos nossos interesses e necessidades. Quando digo nossos, falo do homem como espécie, não só das hienas, urubus e moscas. Adivinha por que a política não é melhor, adivinhão.
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Há quem considere a atividade política uma espécie de doença letal — todo homem honesto que se mete nela tem os dias contados. Pode ser, mas esperneio contra isso, talvez por uma questão de sanidade ou de romantismo. Senão, a gente deveria cruzar os braços e deixar rolar, não é mesmo? O homem, como espécie, é essencialmente o mesmo desde os tempos das cavernas — e há quem duvide de sua sobrevivência se a psicopatia não tivesse comido frouxa.
Mas a vida melhorou. Não estou falando apenas de água encanada, luz elétrica e penicilina, ou do coque banana e da escarradeira fora de moda. Nossa porção do bem — penso nela sempre como Maria Amélia, vá saber por que — botou na roda coisas como compaixão, ética e outras palavrinhas que raramente saem do dicionário pra tomar ar aqui fora. Com elas como base, a Maria Amélia criou leis. Então, não decepcione a Maria Amélia. Pegue suas melhores palavrinhas e vá tomar sol no parque.
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Se entendi direito, o cristianismo é menos ingênuo ou louco do que parece: o homem tem o diabo no couro, precisa ser levado com rédea curta. Atenção, portanto: Jesus te ama, mas vai aumentar o número de cadeias e o peso das multas.
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Não sei se me assusto tanto com os déspotas e ladrões na política. Eles são inúmeros, mas há como fiscalizá-los, se nos dispusermos a isso. Talvez eu tenha mais medo dos preguiçosos e incompetentes. Eles são legião na política. Estão em todos os escalões e parecem inofensivos. Quanto mais inofensivos parecem, mais me preocupo.
Velhos sábios
Um personagem fatal dos melodramas antigos era o velho sábio, em geral mentor do jovem herói. O cinema e a tevê recuperaram esse velho sábio. Os quadrinhos e as animações também — lembre-se de mestre Splinter das Tartarugas Ninja. Agora, confesso que vi poucos velhos sábios, muito poucos. Vi muito mais velhos gagás, ou idiotas chapados, homens que foram incapazes de entender um mínimo do que eles mesmos viveram. Esses velhos podiam começar mostrando alguma sabedoria se preparando para o fim, invariavelmente melancólico. Eu treino há anos para conseguir manter a dignidade na hora da incontinência urinária, por exemplo.
Preferência
G8? G20? Prefiro o Ponto G.
Paixão
Foi o Sartre que disse que o homem é uma paixão inútil? O problema dos zarolhos é que olham para um lado mas enxergam outro.

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