Laurel and Hardy se chamaram, no Brasil, O Gordo e o Magro. Em Portugal, O Bucha e o Estica. Hoje, lá e cá, talvez se chamassem O Obeso e o Esguio. A graça dessas coisas me dá um cansaço. Me sinto velho, ou melhor, idoso. Idoso? Essa palavra já começa a soar ofensiva. Me sinto um deficiente de idade.
Revisão de títulos famosos
o0o Bonitinha, mas de valor moral e intelectual fraco, de Nélson Rodrigues.
o0o O afrodescendentezinho do pastoreio, de Simões Lopes Neto.
o0o Ensaio sobre a deficiência visual, de Saramago.
o0o A idosinha de Taubaté, de Luis Fernando Verissimo.
o0o O nativo da América e o afrodescentente, de Stendhal.
o0o A gaiola dos com alterações patológicas das faculdades mentais, de Jean Poiret.
o0o A profissional do sexo respeitável, de Sartre.
o0o A noite das e dos falecidos e falecidas viventes, de George Romero.
o0o O suposto ladrão de casaca, de Maurice Leblanc.
o0o O caçador de mamífero ruminante da família dos cervídeos, de Michael Cimino.
o0o O senecto testamento, de Deus, pois não?
Cota para deficientes
Agora, com as cotas pra deficientes, dezenas de oligofrênicos garantiram seus programas em rádios FM.
Comigo é pão, pão, queijo, queijo
Comigo é alimento produzido com farinha (especialmente de trigo), alimento produzido com farinha (especialmente de trigo), alimento produzido a partir da nata do leite, alimento produzido a partir da nata do leite. Hummnmm. Alguma coisa não me soa bem, apesar do evidente respeito pelos alimentos deixar minha consciência tranquila.
O que há depois da morte?
Como diria Marge Simpson, está aí um desses mistérios que é melhor não investigar, como a composição da salsicha.
A menopausa ao alcance de todos
Há muito tempo, li um crítico na Gazeta Mercantil afirmando que a Anne Tyler é uma escritora pra senhoras de meia-idade. Fiquei chocado. Acho que você também ficaria se descobrisse assim repentinamente que é uma senhora de meia-idade.
Antes tarde
Não fui um enfant terrible. Mas me preparo pra ser um ancien terrible.
Velhos tempos
Encontrei uma carta que escrevi pra minha mãe aos dezenove anos. Era curta e de uma banalidade total, mas fiquei surpreso: tinha mais de dez pontos e vírgulas. Fiquei muito surpreso: os pontos e vírgulas estavam certos. Diabos, quem será que eu era?
Agruras de um velho escritor
Como escritor ele nunca se achou o rei da cocada preta, mas, com o tempo, começou a enxergar cada vez com mais clareza os próprios defeitos, as próprias limitações. Isso poderia ser uma vantagem — nada como saber quem é o inimigo, qual a posição dele. O que preocupa é que começa a se conformar com esses defeitos, com essas limitações. Chegado a esse ponto, das duas, uma: ou pendura as chuteiras ou, no desespero, parte pro pau. Qualquer escritor digno de ser chamado de escritor é como o soldado desaparecido em ação. Impossível curtir as regalias do aposentado.

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