É como se tivesse uma força estranha que nos empurra para o Twitter para escrever sobre qualquer coisa. É como se houvesse uma obrigação moral com nosso dever de se posicionar sobre tudo. Eu era assim, mas cansei. Cansei por causa da minha timeline, que é o mural das mais profundas superficiais análises sobre qualquer assunto. Ou seja, além de ter cansado de ter aquela opinião formada sobre tudo, também estou cansado de ler meus amigos com aquela opinião formada sobre tudo.
Na última semana, vi bons amigos encantados com o feedback imediato que a plataforma nos oferece. A semana já começou promissora – na verdade, trágica, mas, como bons tudólogos da desgraça, o horrível é assunto. No mesmo período, morreu celebridade, houve o terrível caso da influencer Mari Ferrer, eleições norte-americanas, jogos da Dupla Grenal, entrevistas polêmicas, pesquisa eleitoral, cenários políticos, desportivos, científicos e sociais que despertam as mais escondidas obsessões em opinar sobre tudo isso, seja do jeito que for.
As redes sociais nos seduziram a um ponto de achar que realmente temos uma contribuição inteligente para qualquer assunto. É um processo que se deriva do tal do “faça por você mesmo”. Só que esse sentimento de poder se expressar sobre as coisas foi amplificado de uma maneira que já se tornou incontrolável. A gente se tornou especialista em qualquer coisa. Que, no fundo, é sinônimo para o assessor de porcaria nenhuma, o famigerado ASPONE. A gente fala com a certeza de que aquilo que a gente diz é a coisa certa. Não existe mais o “não sei”. Ele deu lugar ao “eu quero falar sobre isso”.
Por isso, Glória Pires, quando, numa cobertura de Oscar, disse que “não tinha condições de opinar”, estava sendo sábia. Foi um grande exercício de subversão. Na era dos excessos, inclusive do excesso de voz, de opinião, de falso conhecimento, de chute, de falação, sábio é quem admite a ignorância sobre um assunto. Na mesma semana, fui cobrado por um ouvinte sobre uma palavra minha sobre as eleições nos EUA. Minha resposta foi do jeito que eu mais próximo daquilo que eu sou: I DON’T CARE. Com um gif do filme “O Fugitivo”. Saudades de querer saber e querer falar só sobre aquilo que sou pago para fazer e sobre as coisas que gosto de falar.
Como ex-tudólogo e saturado do que eu leio na minha timeline, com a dor de perceber que isso tudo vem de pessoas que eu gosto, recomendo uma espécie de desintoxicação de opinião. Você não precisa dizer o que acha sobre a morte do ator que fazia o Louro José e quinze minutos depois dizer como está a apuração no Arizona. Você não é tão bom assim. Caso seja, faça o favor de ganhar dinheiro com isso. Mas, na era da aparência, você jamais trocaria um RT por 20 reais, certo?

