Terminar o ano de 2019 com muitas dúvidas a respeito de um monte de coisa foi a melhor coisa que me aconteceu. Entretanto, é um processo doloroso, que requer uma certa dose de se colocar num lugar que é desconfortável para o ser humano: a de que a gente é humano, ridículo, limitado e que só usa 10% da nossa cabeça, animal.
Raul Seixas, do seu jeito, sintetizou o que nós somos. A gente é uma raça que acredita que é um doutor, padre ou policial e que está contribuindo com sua parte para nosso belo quadro social. Mas não diz nada sobre aquilo que a gente é ou aquilo que a gente de fato precisa. O ser humano precisa da dúvida e precisa, antes de mais nada, desprezar a falsa sensação de zona de conforto das certezas absolutas. Ok, uma mesa é uma mesa, uma casa é uma casa, a Terra é redonda e o mundo está derretendo, sinal que existem certezas que são de fato absolutas. Mas tem aquele negócio, that thing, aquele comichão que vem vez em quando vem como uma pulguinha atrás da orelha que nos deixa em dúvida a respeito de um monte de coisa que a gente deveria continuar em dúvida mesmo.
O sentimento da dúvida nos tempos atuais é uma oposição às certezas que o senso comum produziu. Embora seja um fardo, bem trabalhado ele se torna um processo humanizador numa sociedade que cada vez mais pensa em ter a última e a total verdade sobre todo e qualquer assunto. As redes sociais amplificaram o fenômeno da certeza absoluta. Formou uma geração de competentes de porra nenhuma. Especialistas do assunto mais hypado de todos os tempos da última semana. Senhores da razão da pauta mais falada do trend topic mais instamagrável cheio de hashtag do último minuto. Todos sabem tudo e dizer que não se sabe nada, manifestar imprecisão, ignorância e ponderar parece ser uma coisa ultrapassada.
A opinião para tudo é definitiva, incontestável, implacável. Ela é a reafirmação de um tempo em que existe uma competição mundial de quem sabe mais. Opinar sem deixar margem para a dúvida é um exercício de autoridade sobre os outros, de domínio do fato, do assunto, da temática sobre os outros, uma coisa que ultrapassa a barreira da certeza sobre a intuição. É a era da pós-certeza: aquela em que supera uma vitória sobre o argumento contrário; ela é uma vitória sobre o argumento favorável, é uma disputa de argumento, um pós-argumento, um pós-saber. A gente sabe de tudo simplesmente porque a gente quer.
Esse cenário pessimista gerou em mim um sentimento de inadequação a esses tempos e aumentou minha incerteza sobre as coisas e sobre mim. Quando eu entro numa rede social e vejo, por exemplo, a análise de comentaristas esportivos sobre um evento, eu me sinto burro. Ou ridículo e limitado. Vejo, de acordo com retórica, discurso e interação, que eles sabem muito mais que eu. Que eu sou pequeno diante de tanta sabedoria e, ao invés de contrapor com alguma coisinha que, vá lá, eu até entendo, prefiro me recolher e observar a verdade absoluta proferida naquele momento. Eu não seria tão ousado em tentar fazê-los ponderar sobre alguma coisa, louco eu até sou, mas não consigo confrontar gente muito superior – moral e intelectualmente – a mim. Duvida? Dá uma olhada no evento Flamengo x Liverpool nas redes sociais. Foi um conjunto das maiores análises sobre futebol que eu pude ter o prazer de absorver na história do jornalismo esportivo brasileiro.
A mim, restaram as dúvidas de não saber se o que eu pensava sobre o jogo não era relevante ou importante ou digno de compartilhar com os outros. Veio a calhar. Ao longo do ano, percebi que a gente erra muito mais que acerta. E que a gente não sabe muito mais que sabe. Que a gente aprende muito mais que ensina. Que por mais que a gente tente conhecer as coisas nunca será o suficiente para nós e para os outros. Lutar contra as dúvidas é lutar contra um elemento que é inerente ao ser humano e à sociedade: tudo, mas absolutamente tudo é dinâmico. A luta contra a dúvida é a luta contra a nossa essência.
O ser humano, afinal de contas, é um ser engraçado. Se aquilo que nos faz crescer é justamente a busca por conhecer, por viver, por experimentar, por aprender, a gente parece erguer uma taça quando mostra aos outros que já conheceu, que já viveu, que já experimentou e que já aprendeu. E aí vem o passo final para esse processo da certeza absoluta: tornamo-nos desumanos e previsíveis. Ponto de interrogação não é fraqueza. É liberdade!
