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Por que o sexo é divertido

Assisti na tevê, da metade pra frente, um documentário com esse título, ou coisa parecida. Estarrecedor. O orgasmo masculino dura em média seis segundos. …

Assisti na tevê, da metade pra frente, um documentário com esse título, ou coisa parecida. Estarrecedor. O orgasmo masculino dura em média seis segundos. Mas que seis segundos, pode-se acrescentar com uma bela exclamação. Olha, o orgasmo feminino dura em média vinte segundos. Sem falar que uma mulher pode ter vários seguidos com intervalos mínimos. Conheceram, papudos? Venham falar em sexo forte agora.

Há cientistas que pesquisam desesperadamente a localização do ponto G. Melhor do que localizar o Pé Grande, não? Não encontraram. Pelo visto, o ponto G não é ponto, mas o conjunto todo, por dentro e por fora. Nem é G, mas o abecê todo, digamos. Como sempre, como outras coisas, o prazer varia de pessoa pra pessoa, varia de intensidade na própria pessoa conforme a noite ou o dia e varia conforme a parceria. Porque, como disse alguém, numa frase engenhosa, tudo se passa mais entre as orelhas que entre as pernas.

Uma mulher pode ter um orgasmo com qualquer fulano. Mesmo que não queira nada com ele ou nem vá com sua cara. Olha aí, românticos, um lenço pra vocês secarem as lágrimas e limparem a meleca do nariz. Mas, afirmam os cientistas, se se transa com quem se gosta muito, os orgasmos são mais prazerosos. Quem diria, o amor é afrodisíaco. Pena que a palavra amor ande esfiapando nas beiradas.

Por que o sexo é divertido? Vira e mexe — hummm —, damos a palavra ao velho Darwin: o orgasmo é um truque da evolução. Uma isca. Se sexo fosse chato, a vida teria arrumado outra forma de nos engambelar. Alguns cientistas chegam a falar “que o orgasmo é uma compensação”. Certamente os filhos deles infernizaram um bocado.

Problema sério

Camus dizia que o único problema filosófico era o suicídio. Besteira. O único problema filosófico realmente sério é nossa necessidade de sermos levados a sério. Resolvido isso, o resto sai na urina, como dizia um tio meu.

Dance dance dance

Assim mesmo, sem vírgula. É o título de um romance de Haruki Murakami. Talvez a tradução tenha piorado o que já era péssimo. Talvez todo aquele papo furado que enche a maior parte de suas quinhentas páginas seja escrito num estilo impecável em japonês.

Mas é dureza. Como suportar, mesmo num estilo perfeito, personagens opinando longamente sobre bandas de rock ou sobre carros, ou contando como se faz um sanduíche, ou dizendo as banalidades mais rasteiras sobre a vida? Vou mais longe: mesmo que esses papos todos fossem interessantes, o que fazem lá? Um romance pede gente em cena, o que quer dizer conflitos, relacionamentos. Lugar de bate-papo é no buteco da esquina e em crônica. Pra completar, o enredo, que daria uma novelinha de umas cinquenta páginas, é uma fraude armada pelo autor. Não acreditamos em nada, os personagens são cães amestrados obedecendo às ordens do autor. É tão ridículo que, quando Murakami não sabe como revelar alguma coisa, ele faz o herói sonhar com ela ou ter um surto de vidente.

Não se pense que não gosto da literatura japonesa. Pelo contrário. Sou fã, por exemplo, do Yasunari Kawabata. Vide A casa das belas adormecidas e O país das neves. Ou Kazuo Ishiguro, apesar de ser mais inglês que japonês. Vide O desconsolado e Os vestígios do dia, que comentei aqui mesmo. Mas o Murakami…

Li há muito tempo Caçando carneiros. Não lembro direito. Não fiquei muito satisfeito, mas achei interessante, tanto que comprei Kafka à beira mar. Também não fiquei muito satisfeito. Sempre chega um ponto em que não sei do que o homem está falando. Mas há vários capítulos divertidos e por isso me arrisquei com Dance dance dance. Sei o que ele quer dizer com esse negócio de dançar. Mas sei porque já vivi o suficiente. Pelo romance dele eu ficaria boiando.

É uma pena. Sempre fico triste quando perco um autor. Sim, como quando a gente perde um amigo. Nesse caso, nem cheguei a ser amigo do Murakami. Mas em Kafka à beira mar entrevi uma amizade, me entende?

Autor

Ernani Ssó

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