Os artistas mexeram em tudo. A pintura pediu divórcio litigioso ao desenho, o romance perdeu o enredo para o samba, a música foi levada a requintes tais que o bumbo ficou meio sem jeito e o teatro botou a plateia no palco, numa bela divisão de culpa pelos maus espetáculos. Por que, então, a vanguarda não pode chegar à meteorologia?
Pensemos numa previsão do tempo com flash back: primeiro, o tempo de janeiro do ano passado, depois o de agosto do ano que vem, depois o do dia de hoje, feito um reencontro em Mariembad, até cobrirmos um período razoável de tempo, no sentido dos relógios. A previsão poderia variar de local também. De uma previsão para Turvo, em SC, pularíamos para Cuerna Vaca, no México, de lá para Espumoso do Sul ou Trombudo do Norte, por aqui ou seja onde for.
Penso que há a necessidade de uma visão mais universal do tempo, mesmo que os regionalistas mais raivosos trovejem contra a influência do fog londrino na cerração gaúcha. Acho que uma previsão assim, totalizadora, de espaço e tempo do outro tempo, está mais próxima da sensibilidade pós-moderna, acostumada a uma vida fragmentária e apocalíptica, que nos promete o Dia do Juízo Final para antes do último segmento da novela. Essa visão joyceana da meteorologia vem atrasada, a meu ver — os meteorologistas pegaram mau tempo pelo caminho.
Devo informar ainda que as previsões que farei aqui foram baseadas em dados colhidos pelo mais complexo dos aparelhos: o reumatismo de uma tia minha que, no esplendor dos seus setenta anos, teve propostas para trabalhar no 8o Distrito de Meteorologia. Outra coisa: acho necessário esclarecer certas notícias espalhas por esse mesmo 8o Distrito, como atribuir a chuva a São Pedro, ou dizer que o trovão é o barulho do jogo de bocha de Deus com os Santos e os relâmpagos flashes das máquinas fotográficas dos anjos. Nada a ver. A chuva, o trovão e o relâmpago são fenômenos explicáveis por qualquer cartomante, não passando, na maioria das vezes, de produtos da alucinação coletiva dos meteorologistas que, segundo minha tia citada, “vivem nas águas”.
Agora que desnublei um pouco o assunto, podemos passar às previsões, que eu gostaria que fossem tão completas, tão clarividentes, que pudessem valer não apenas para este ano, mas para todos, sempre, em qualquer lugar. Sim, uma obra clássica, uma obra de gênio meteorológico, densa nas descrições dos temporais; bela, serena, na dos dias bons; com ritmo que fosse de fraco a moderado, a violento, dependendo dos ventos. Esta liberdade estilística, no entanto, repousa sobre uma estrutura poética de extremo rigor: as quatro estações.
Outono. Muita folha seca. Muita melancolia. Sonetos, de fracos a fraquíssimos, vindos do quadrante da Academia Brasileira de Letras, no final do período. Angústia relativa do ar vaga, não mais do que 23%. Tempo sépia. Algumas vezes chegando ao marrom cocô.
Inverno. Pessimismo, gripe, muito ranho e conhaque. Filósofos niilistas, de fortes a fortíssimos, vindos de quadrantes germânicos, do início ao fim do período. Suicídio relativo do ar 98%. Tempo cinza. Muitas vezes negro.
Primavera. Lirismo, borboletas, pássaros. Muita frescura também. Sensualidade fraca no começo do período mas aumentando gradativamente. Alegria relativa do ar: 95%. Tempo furta-cor.
Verão. Cio, suor e cerveja. Preguiça e vagabundagem, de fortes a fortíssimas, vindas de todos os quadrantes, por todo o período. Sexo explícito no ar: 100%. Tempo vermelho.
Seleção
Pablo; Diego, José, Francisco e de Paula; Juan, Nepomuceno e María de los Remédios; Cipriano de la Santísima Trinidad, Ruíz e Picasso.
Dicionário do mau digitador
oOo Doicente. Todo professor ou professora gaúcho. oOo Doisponibilidade. Um casal disponível. Pra quê, não sei, mas desconfio. oOo Coinjunto. O modo como os irmãos Cohen trabalham. oOo Instantres. Os momentos de um triângulo amoroso. oOo Cocordenado. Não foi uma droga, não. Foi bem feitinho.

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