Houve um tempo em que os jornais destinavam amplos espaços para as editorias de cultura (ou variedades). Era a época pré-cadernos, em que o editor conversava com o diretor de Redação, de manhã cedo, e pedia: “Qquero tantas páginas para amanhã”. E, quase sempre, levava.
Na Folha da Manhã, onde trabalhei sob a chefia de Helena Lemos, escrevia-se muito: Luiz Carlos Merten e, depois, Tuio Becker, sobre cinema; Maria Wagner e, depois, Eduardo San Martin, sobre música; Angélica Moraes e, depois, Orlando Brasil, sobre artes plásticas; eu, e depois Caio Fernando Abreu, sobre artes cênicas.
Dentro desta prática, especificamente na área que eu ocupava, a rotina era fazer uma página (uma página!!!) anunciando o espetáculo, ou um destaque deste espetáculo com atores, diretor, autor da trilha sonora. No dia da estréia, mais uma página (!!!), com uma análise do texto dramático, detalhes da montagem e outros quetais. E, assim que houvesse chance, era a vez do comentário crítico sobre o espetáculo – uma página, ou, eventualmente, meia.
Não era um privilégio da imprensa gaúcha, é claro. Era um jeito de fazer jornalismo cultural que se inspirava em São Paulo e Rio – e aí, me vem mais saudade, quando lembro das capas do Caderno B com as aulas de teatro de Yan Michalski.
Mais tarde, quando reingressei no Correio do Povo com seu novo formato, me adequei aos novos espaços. Mas, com apoio do Tuio, então editor de variedades, mantive minhas 20 linhas de comentário religiosamente, semanalmente, às vezes mais de uma vez por semana.
Falei tudo isso porque li, nesta manhã de sexta, a crítica de Antônio Hohlfeldt (aliás, o único jornalista que nunca deixou de exercer seu papel de crítico, ao longo de mais de 30 anos) no Jornal do Comércio e me bateu outra tremenda saudade daquele tempo em que este tipo de matéria era a regra, não a exceção.
Sei que os jornais de Porto Alegre não estão fora da realidade imposta pelos novos tempos e que envolve as demais publicações nas suas novas configurações. Mas não posso deixar de lamentar que não só o teatro, mas todas as artes, hoje estejam – dentro das editorias culturais – tão distanciadas do material que pode levar à reflexão que é a crítica.
Temos excesso de colunistas e carência de jornalismo crítico.
Ao mesmo tempo, me alegra saber que o JC e Maria Wagner mantenham, com destaque, lugar para que se exerça o comentário necessário sobre o produto cultural oferecido ao público. E fico torcendo para que os editores e chefes de redação repensem o que está sendo feito hoje e encontrem um meio-termo (nem precisa uma página!!!) retomando a boa e velha crítica sistemática em seus cadernos de cultura e variedades.
