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RBS fecha jornais de bairros. Aplausos

Em 40 anos de jornalismo já vi muita coisa nesse cenário da comunicação: boas ações, iniciativas perversas, generosidade, ganância, falta de escrúpulos, solidarie

Em 40 anos de jornalismo já vi muita coisa nesse cenário da comunicação: boas ações, iniciativas perversas, generosidade, ganância, falta de escrúpulos, solidariedade etecétera e etecétera. Em resumo, como toda moeda tem duas faces, na comunicação todas as medidas trazem reflexos que podem ser considerados positivos e/ou negativos. Claro que me solidarizo com os demitidos da RBS, mas como sempre devemos ser imparciais, também avalio o lado empresarial e vou tratar deste assunto em outra coluna. No caso específico da RBS, é importante ressaltar que, em meio a toda essa crise, também há uma repercussão positiva. Entre as decisões tomadas pela diretoria, uma delas, ao menos, traz consequências animadoras para um setor: os jornais de bairro.

Com a decisão da RBS em fechar os jornais de bairro, alguns profissionais que se dedicavam a esse setor foram prejudicados. Não foram muitos, mas admito que não sei quem foi demitido ou remanejado. O lado positivo dessa ação é que essa “ganância” da RBS, em querer “150% do mercado”, como declarou certa vez um executivo do grupo na década de 1980, referindo-se ao crescimento comercial que o Oi Menino Deus apresentava. Então, a RBS queria “abocanhar” tudo, não importava se pequenos empreendedores em comunicação fossem veteranos ou jovens jornalistas que lançavam um jornal de bairro – e até mesmo de entidades – buscassem um espaço no mercado. Se a RBS pudesse, e podia, faria todos.

Os jornais de bairro padeceram com essa concorrência que, se não era desleal porque o mercado é assim, no mínimo era imprópria. Afinal, por que não investir em outros projetos mais ousados e deixar este espaço para as micro e pequenas empresas? Afinal, elas eram suas clientes na etapa industrial, pois muitos mandavam imprimir seus veículos em ZH ou no Pioneiro, ambos da RBS. No entanto, para seus jornais, o grupo tinha a vantagem do custo industrial quase zero. Era uma diferença abissal para as microempresas que precisavam lutar muito para vender anúncios de R$ 30,00, R$ 50,00, R$ 100,00 para cobrir seus custos e ainda ter algum lucro.

Sei disso porque durante alguns anos editei o Via Protásio, que circulava na região da Avenida Protásio Alves, Zona Leste de Porto Alegre. Foi uma teimosa criação da valente empresária Silvia Viale, da Conceitual Press, mas que, infelizmente, não pôde continuar. E a Zero Hora ali, ocupando um espaço que os outros atendiam muito bem. Pura ganância ou “marcação de território”. Não vejo outro motivo, pois duvido que um jornal de bairro dê lucro consistente para uma empresa do porte da RBS. É farelo, migalha… Mas para uma empresa familiar pode significar um retorno que garanta o sustento.

Bem, voltando à “vaca fria”, o que importa é que a RBS saiu do mercado dos jornais de bairro e isso abre uma boa possibilidade de crescimento no segmento. Mas o pessoal precisa se antenar. Tenho visto alguns bons jornais de bairro, mas a maioria ainda carece de qualidade. Pessoal! Chega de improviso e descuido com o jornalismo. Jornal de bairro PODE e DEVE ser bem produzido. Temos ótimos jornalistas disponíveis no mercado que podem trabalhar durante um turno ou num regime de freelancer racional em termos salariais, pois, geralmente, um jornal de bairro não é difícil de produzir. Com uma equipe enxuta, dá para tocar o barco e ter algum lucro, que será maior ou menor dependendo da criatividade editorial e comercial. E há um bom mercado de veículos institucionais que pode ser explorado.

De qualquer forma, solto vários foguetes por esta notícia: RBS fora do mercado de jornais de bairro! Sugiro até que o Sindicato dos Jornalistas do RS e a ARI promovam algum tipo de evento para debater este mercado, avaliar o momento e sugerir novas soluções de redução de custos industriais, de distribuição etc. Se quiserem me convidar, creio que posso contribuir com um pouco da experiência com o que aprendi em jornalismo segmentado. Boa sorte! 

Autor

Julio Sortica

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