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Recado pras Carmens Mirandas da literatura

James Dickey: “Se você sabe mesmo escrever, não precisa usar roupas engraçadas”.   Regionalismo No milênio passado, fui editor por um tempo. Nem é …

James Dickey: “Se você sabe mesmo escrever, não precisa usar roupas engraçadas”.

 

Regionalismo

No milênio passado, fui editor por um tempo. Nem é bom falar, me aconteceu de tudo. Ou, vai ver, é bom falar – algumas histórias são sensacionais, como a que envolve um sujeito macho uma barbaridade.

O autor entrou na minha sala e jogou o original na escrivaninha. Se sentou, empurrando a cadeira pra trás e abrindo bem as pernas. Com um sorrisinho pro lado, disse:

– Vamos, abra em qualquer página.

– Você me desculpe, mas não vou ler nada agora. Depois, com calma…

Ele abriu o original.

– Leia, cara, você vai adorar. Best-seller garantido. É tudo muito engraçado. São lembranças de infância no campo. Sabe como é, pescarias, sexo com éguas, galinhas…

 

Descrições

– As lágrimas lhe brotaram dos olhos, após fracassarem no sovaco e atrás das orelhas.

– Via-se em seu olhar a tristeza do contribuinte que não tem mais esperanças de receber a restituição ainda em vida.

– Por um instante, prenhe de eternidade, me olhou com seus olhos azuis. Que saudade de seus olhos verdes, reservados pra domingos e feriados.

– O anão, devido ao queixo resoluto e ao olhar penetrante, parecia ter um metro e oitenta.

– Os amantes chegaram ao clímax e ao anticlímax ao mesmo tempo.

 

O dicionário do mau digitador

Há tempos descobri que, entre as dezenas de erros de digitação que cometo todo dia, criava palavras novas. Fiz então um dicionário. Não durou muito, infelizmente, porque sou repetitivo até nos erros. Mas esses dias fiquei alegrinho: apareceram erros novos. Ou minha memória falha? Se for o caso, me avisem.

Com vocês os melhores erros deste mês:

– Alemanhã. A Alemanha do futuro.

– Diretrezes. Cuidado, não as siga, pode dar azar.

– Muylher. Una chica caliente, por supuesto.

– Certreza. Uma certeza supersticiosa.

– Coitrado. Sujeito que fez parte do movimento gay na marra.

– Oideio. Saúdo com vontade de matar.

– Algordão. Um albino muito fofo.

 

Deixem de fazer arte, crianças

Joseph Kosuth: “Quando o cubismo foi exposto no Armory Show, os jornalistas escreviam que crianças não deviam ver Matisse ou Picasso porque isso iria corrompê-las! Agora, qualquer republicano amaria ter um Picasso na sala de jantar”.

É verdade, só não vamos esquecer que o republicano ama ter um Picasso mas não ama Picasso – Picasso é chique, hoje, por valer uma nota preta.

Nenhuma criança, que eu saiba, foi corrompida pelos quadros de Matisse e Picasso. Agora, outros artistas, puxa, nem é bom falar.

 

Seu rabisco vale um milhão

Qualquer baboseira que Picasso fez e desprezaria se assinado por outro pintor continua sendo chique hoje e continua valendo uma nota preta. É muito, muito difícil evitar a superstição na avaliação da arte e da literatura. Quando a dita arte vale milhões, isso piora sensivelmente. Eu, por exemplo, grande admirador de Picasso, gostaria de ter um quadro dele, mesmo que fosse um dos que detesto.

Autor

Ernani Ssó

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