Arrumando minha biblioteca, achei um livro comemorativo dos cem anos do Colégio Júlio de Castilhos, o famoso Julinho. Tem um texto meu, mais ou menos engraçadinho, chamado “Engraçadinhos”, que transcrevo abaixo:
Nunca ri tanto na minha vida. Sei, é uma coisa meio esquisita para se dizer sobre um colégio, sem falar que estávamos no maior sufoco: o vestibular pela frente e a ditadura por cima. Mas foi assim mesmo. Não vivi um grande amor, não tive nenhuma revelação transcendental, não fui campeão de nada. Só ri. Ri tanto que devia parecer um idiota. Mas foi danado de bom.
Todos conhecem a fama do Julinho. Agora, em 72, quando estive por lá, não se falava em política, no máximo trocávamos olhares cheios de significação, como se diz dos olhares da mocinha para o mocinho na novela. Nossa única reivindicação, se não me engano, foi pedir um professor de Química, matéria que não tínhamos no Clássico — como se vê, sou antigo, sou do tempo do Clássico. Depois de nossa representante, a Tahís, fazer uma campanha dramática, a Direção nos arrumou um professor de Química — e nenhum de nós, que eu saiba, jamais foi a uma aula dele.
Essa flauta toda parece estranha, não? A verdade — nada fotogênica — é que não estávamos ali para aprender, apenas para passar de ano. A gente arrancava os cabelos era no cursinho. Quer dizer, meus colegas arrancavam, porque eu, num lance de petulância delirante e economia forçada, resolvi encarar o vestibular mano a mano.
Mas eu ria por causa de uns colegas. Eram loucos, completamente loucos, capazes de fazer qualquer coisa. Quer dizer, qualquer coisa quando sentiam a impunidade relativa do ar beirando os setenta por cento. Uma vez, por exemplo, para escaparmos de uma prova de Biologia, eles embromaram o professor por dois períodos, no laboratório. Sabe como? Fazendo o teste de Rh. Teve neguinho que ofereceu vários dedos para a lanceta.
Quem mais sofreu foi o professor de Geografia. O pobre tinha nascido para vítima, mas teve sua desforra, uma tarde. Suspeitando — temo dizer que com toda a razão — de uma cola de cem por cento numa prova, deu a nota pela nossa cara. Isso mesmo. Olhava a chamada e dizia:
— Fulano.
Fulano levantava a mão. O professor, depois de um rápido exame da prova e do fulano, dizia:
— Sete.
— Mas, professor, eu tirei dez! Eu nunca tirei dez na vida. Agora que tiro, o senhor…
— Não, não, você tem cara de sete e olhe lá.
Eu, como tinha achado que uma tempestade de dez não era nada verossímil, errei o suficiente para tirar oito. O professor olhou para o meu oito, olhou para a minha cara e disse:
— É.
Ainda não sei se tinha cara de oito ou cara de inocente.
No fim, no maior desânimo, encolhendo os ombros, ele disse:
— Pra mim tanto faz, quero ver é no vestibular.
Mas como raramente a vida tem compromissos com as lições de moral, por mais certas que elas sejam, até eu passei. Como? Pra falar a verdade, ainda não sei. Em momentos de otimismo, acho que foi pura piedade do computador que calculava a média.
Talvez pareça inconsequência tanto riso gratuito. Talvez seja mesmo. Talvez tenha sido crueldade o que fizemos com alguns professores. Mas fico pensando. Estávamos numa idade em que a água ferve antes dos cem graus, presos na panela de pressão da ditadura e do vestibular. Daí — bem, daí que estou aqui alegando legítima defesa.

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