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Rejeições célebres

Duas e três, alguém lembra que autores hoje famosos foram rejeitados por vários editores. Nós, tantas vezes rejeitados, nos consolamos. Doze grandes editoras rejeitaram …

Duas e três, alguém lembra que autores hoje famosos foram rejeitados por vários editores. Nós, tantas vezes rejeitados, nos consolamos. Doze grandes editoras rejeitaram o primeiro livro da saga do Harry Potter? Bem feito. Os editores em geral entendem pouco de literatura, sem falar que são raros os que se arriscam a publicar um livro apenas pelas qualidades literárias, sabendo que vão perder dinheiro ou ganhar uma mixaria. Agora, Harry Potter prova que eles também não têm a menor ideia de quais livros vão faturar.

Mas eles nem sempre erram, claro. Vejamos, por exemplo, o que Marc Humblot escreveu na carta de 1912 rejeitando O caminho de Swan, de Marcel Proust: “Posso estar morto do pescoço para cima, mas por mais que vasculhe meu cérebro eu não consigo ver por que um sujeito precisa de trinta páginas para descrever como ele se revira na cama antes de dormir”.

Você não assina essa frase de Humblot? Eu assino, com toda a calma. A lentidão de Proust me tira do sério. Li apenas os três primeiros volumes de Em busca do tempo perdido. Que fazer? Eu não conseguia me interessar, mesmo gostando de muitas cenas e de alguns personagens. Algumas das minhas suspeitas sobre o romanção — eu não tinha conhecimento suficiente pra confirmar —, Paulo Hecker Filho destrinchou numa longa resenha de 1975 chamada “Proust retomado”. Está no livro Um tema crucial (homossexualismo), editora Sulina, 1989.

Outro exemplo: um editor tachou O senhor das moscas, de William Golding, de “Uma fantasia tola e desinteressante que é puro lixo e tédio”. Anos depois Golding ganhou o prêmio Nobel. Mas e daí? Essa frase é a melhor crítica que vi sobre o livro de Golding.

Eu, tantas vezes recusado, sou grato aos editores. Pude revisar meus livros mais uma vez, melhorando-os.

Sem embocadura

Meus livros são diferentes, às vezes nem parecem escritos pela mesma pessoa. Isso levou o professor Luís Augusto Fischer a dizer que não encontrei minha embocadura. Como a palavra embocadura me parece muito feia, espero não encontrar com ela nunca, mais ainda se for tarde da noite em algum beco por aí. Sem brincadeira, eu encontrei minha embocadura, ou melhor, embocaduras. É que sou vários. Para o bem e para o mal, eu sou vários. Mas não tenho nada contra autores que são sempre os mesmos. Até sou fã de alguns.

As correções

Depois de ouvir todo esse carnaval em torno do Jonathan Franzen, o gringo que vendeu milhões de livros, que deu capa da Times, que escreve romanções imitando Leon de Tolstoi, resolvi encarar o homem por As correções, pois me disseram que era melhor que Liberdade. Como não levo a sério as capas da Times, não me decepcionei. Mas que é irritante ver encherem a bola de um escritor de quinta, é. Pelo que me lembro, apenas Alberto Manguel torceu o nariz pro Franzen. Viva o Manguel. Viva a lucidez do Manguel.

Não é que livro seja inteiramente ruim. Mas é tedioso, esquemático, cheio de detalhes inúteis na tentativa de abarcar tudo ao redor. Vide uma longa conversa sobre aquecimento global. É um discurso enfiado a força, mensagem do autor. Vide o comportamento da família do irmão mais velho. Aquela mulher nem numa novela das seis horas parece verossímil. Depois ainda há o texto, muita vezes sem precisão nenhuma, com tentativas de metáforas de um mau gosto horripilante. Jonathan Franzen parece um adolescente fazendo pose de adulto.

A cara do papa

Não sei se repararam bem na cara do papa. Se fosse um filme sobre as ligações da Igreja com a máfia, com grandes doses de corrupção, assassinatos e pedofilia, diriam que a escolha do cardeal Ratzinger para ator foi pura má fé, apenas pra deixar mal os católicos. Eu pelo menos recolheria a língua na hora da comunhão, se a hóstia me fosse apresentada por um tipo suspeito desses.

Autor

Ernani Ssó

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