Com 35 anos de carreira, tendo comandado redações como as de Veja, Época, Jornal do Brasil, Forbes, O Estado de S. Paulo e Zero Hora, e dono de um texto vigoroso, afiado e sedutor, Augusto Nunes (foto) brinda o leitor de A Esperança Estilhaçada (Editora Planeta) com o retrato preciso de um País mergulhado na descrença. “O Brasil teve em Collor seu penúltimo homem providencial e, em Lula, o último”, afirma no instant book lançado no final de 2005, mas que fala de uma crise que está longe de acabar, em especial devido ao ano eleitoral que se inicia.
O autor dribla o caráter descartável da obra ao baseá-la nos personagens da crise. Perfis têm dados acrescentados pelo tempo, mas não mudam na essência. Trata-se de uma coletânea de artigos publicados no Jornal do Brasil e no site No Mínimo, mas os textos foram reescritos, reordenados, subtraídos de aspectos pontuais em excesso, o que torna o material de interesse permanente. E escrito com o célebre virtuosismo de Nunes. A experiência jornalística do autor, a intimidade com assuntos do poder e o apurado senso de observação tornam o livro uma interessante aula de história. Sem o distanciamento crítico em geral exigido de obras do gênero, mas com o predicado de ter sido produzida no calor da batalha.
Um dos personagens do livro Eles Mudaram a Imprensa, da Fundação Getúlio Vargas, ex-apresentador do programa Roda Viva, da TV Cultura, autor de Minha Razão de Viver – biografia de Samuel Wainer, e da biografia de Tancredo Neves para a série Grandes Líderes, Augusto Nunes vislumbra aspectos positivos em tudo o que está acontecendo na política brasileira. Segundo ele, “somados seis meses de estrondos quase diários, a grande crise de 2005 mudou o governo, os partidos, o Congresso (sobretudo a Câmara). Mudou (para pior) o comportamento do Poder Judiciário, mudou (para melhor) o jeito brasileiro de olhar a corrupção. O país cansou-se da impunidade dos ladrões influentes. Percebeu que a roubalheira aumentara no governo que fora eleito para acabar com todas as maracutaias”.
A Esperança Estilhaçada, que tem uma bela capa produzida por Toninho Mendes, é fundamental para jornalistas, estudantes e interessados em seguir, sem medo de ser infeliz, as pegadas deixadas no pântano do Planalto por personagens que por muito tempo esgueiraram-se à sombra de uma estrela insuspeita.


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial