Está rolando nos noticiários brasileiros a matéria que um jornalista do Le Monde fez sobre a Rocinha. Jean-Pierre Langallier fez aquela típica reportagem romanceada destinada a arrancar lágrimas dos olhos dos normalmente frios e distantes cidadãos que vivem longe dos problemas do Tiers Monde. Um jeitinho sentimental de escrever que tem rendido destaques e prêmios a seus autores mundo afora e que, confesso, me irrita muito – embora eu mesma já tenha apelado para o texto estiloso e, volta e meia, caia nele.
Já Mathilde Serrell e Antoine Blin são dois jornalistas que mantêm um podcast no Monde – o Un Monde de Sons – e se definem como caçadores de sons desde criancinhas. Na contramão do mundo das imagens, eles buscam originalidade ao levar aos internautas diferentes sons de diversas procedências. Na coluna desta quinta feira, dia 20, eles publicam um mp3 com o Rap da Felicidade, de dois moradores da Rocinha. O título do podcast é Favela pas Chic, com certeza uma ironia com a badalada casa de shows e restaurante brasileiro instalado em Paris que se chama Favela Chic. A dupla disponibilizou, em link, a letra em português .”Se você for lusófono, veja as palavras aqui”, dizem os podcasteiros explicando que o desejo expresso na música (“quero ser feliz, caminhar tranqüilamente na favela onde nasci” etc etc etc) tem uma conotação particular “neste início de ano marcado pela morte de crianças por balas perdidas dos choques entre polícia e narcotraficantes”. Ok. Um certo atraso na informação dos jornalistas do Monde, já que a triste rotina da Rocinha e do Rio urbano em geral não começou neste ano.
A seguir, eles linkam a história melodramática de Langellier e encerram com a frase ao estilo pseudo-Zola: “Quando tudo está negro, um vídeo pode unir uma geração e trazer esperança”. Já a matéria do moço que visitou a Rocinha começa assim: “Em sua última foto, Agata Marques dos Santos sorri para os anjos. Ela usa um colar de pérolas no pescoço (e eu, Maristela, aqui pergunto: onde mais seria o colar, monsieur???) e uma coroa de rosas nos cabelos encacheados. Ela tem 11 anos. E os terá para sempre. Na sexta, 15 de fevereiro, pouco depois das 13h, uma bala perdida a feriu mortalmente”.
O tom vai assim até o final do texto, intercalando algumas informações sobre número de vítimas, confrontos e tal. Também faz referência ao Bope, ao livro Elite da Tropa (que, por ser mal-informado, confunde com o nome do filme Tropa de Elite) para pinçar um diálogo que, fora do contexto, deve arrepiar os pêlos dos leitores franceses: “Capitão, foi a gente que matou a menina?” Resposta do oficial: “Esquece, meu velho, esquece”. Forte, não?
Pois eu continuo me indignando por ver que continuamos sendo notícia, lá fora, pelo que temos de pior. Ou é turismo sexual que nos atrapalha, como aconteceu há pouco em Barajas, ou é o tráfico, ou é o exotismo das favelas. Sempre. Do bom, ninguém fala. Talvez porque a imagem que estamos vendendo seja essa mesma que um jornalista apressado tem como tela para discorrer romanceadamente.
Como o macaco não olha para seu rabo, os jornalistas europeus costumam pegar pesado com o que está longe porque preferem ignorar os guetos em estado de explosão que incharam suas principais cidades. Ficam de politicamente corretos e sossegam os leitores por ver que au-delà do mar, a vida parece bem pior.
