Colunas

Ruth Cardoso, a exemplar

“Nós, mulheres, estávamos excitadíssimas com a presença de Simone [de Beauvoir], afinal O segundo sexo era a bíblia da nossa geração, tínhamos certeza de &

“Nós, mulheres, estávamos excitadíssimas com a presença de Simone [de Beauvoir], afinal O segundo sexo era a bíblia da nossa geração, tínhamos certeza de que ela vinha pontificar sobre o feminismo. Assim, lá em casa, preparei a sopa de mandioquinha, um prato muito apreciado por estrangeiros. Toda orgulhosa, trouxe a sopa para a mesa, mas a Simone começou:

— O que é isso?

Fica difícil explicar a mandioquinha, porém tentei. E ela:

— Tem cebola?

— Tem.

— Ele não pode comer.

— Tem não sei o quê?

— Tem.

— Ele não pode comer.

Uma coisa de mãe e filho, irritante. Uma chata! Onde estava a mulher que defendia os direitos da mulher? Era uma submissa? Não estava entendendo.

Sartre, relaxado, foi comendo sem se incomodar, apesar da vigilância.

Bem, a sopa não fez sucesso. Veio a sobremesa, goiabada com queijo, e vieram as perguntas, a implicância. Ela comeu por delicadeza, via-se que não gostava. Mal acabou, o Fernando Henrique, por maldade, colocou nova porção, dizendo: ‘Vi que a senhora gostou, aceite mais um pouco’. Simone foi a grande decepção para nós, ela não se interessava por nada”, concluiu, entre risos, Ruth Cardoso.

“Embate duro, complicado, foi com a cozinha do palácio. Foi um desafio difícil, ela quase desistiu por causa das tradições e da burocracia existente. No início foi uma tragédia, porque a cozinha do Alvorada estava a cargo da Marinha e os cozinheiros eram taifeiros. Uma coisa inominável, garante Celso Lafer, que comeu ali várias vezes. Era muita lataria, muita maionese, comida de gente que ficava 25 dias no mar. “As razões dela eram muito substantivas”, releva Lafer, “a comida era um horror.” Ruth ia para a cozinha e tentava fazer mudanças numa simples salada. Impossível. Qualquer coisa, por mais elementar que fosse, encontrava obstáculo. Era a inação da burocracia.”

Trecho de Ruth Cardoso – Fragmentos de uma Vida, de Ignácio de Loyola Brandão.

Em lembrança de uma brasileira pacifista e exemplar que nos orgulhará para sempre.

Autor

Maristela Bairros

Compartilhar:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.