Estamos vivendo já há alguns anos essa transição: saímos da sabedoria para o conhecimento, migramos para a informação e, finalmente, os dados, chegando em um mundo e uma mente totalmente fragmentados. O resultado não foi bom, por alguns motivos. Posso citar por aqui aqueles que são mais relevantes.
O primeiro que a perda da sabedoria é extremamente danoso. Não entendo que simplesmente deixamos de ter sabedoria no mundo, fato foi que ela se tornou mais rara. Se pensarmos no mundo como um todo, afeta tudo, desde relações sociais, econômicas, governos, consumo de conteúdo, entendimento e conclusões. Se entramos nas relações pessoais, acontece a mesma coisa: para uma pessoa ser ao menos um pouco sabia, era necessária introspecção, reflexão, conhecimento sem dúvida, experiências, sentimentos e intuição. Este pacote poderoso é um dos caminhos (se posso chamar assim) que levavam à sabedoria.
Termos um mundo com muito conhecimento não é por si só algo negativo. O conhecimento é desejado, necessário e até indispensável para o progresso da humanidade como um todo. Como evoluiríamos como indivíduos se não tivéssemos acumulado e transmitido conhecimento ao longo dos milhares de anos? Porque o aprendizado é fundamental e para aprendermos precisamos de conhecimento, seja ele no formato e da fonte que vier (quero dizer que o conhecimento não precisa ser só o científico, mas, também, o empírico, por exemplo). Relações sociais, econômicas, governamentais e pessoais necessitam avidamente do conhecimento.
Porém, se chegarmos somente no nível da informação, passamos a ter um problema: ela, isoladamente, não constrói conhecimento. Para que se torne conhecimento é preciso que agrupemos a informação a partir de lógica, façamos inferências, reflexões e costura disso tudo. Então, transformamos informação (que tem enorme valor) em conhecimento e seu potencial se agiganta. Não se pode, como está ocorrendo hoje, passar o dia e as semanas e meses exclusivamente à base de informação. É preciso fazer alguma coisa com elas. E alguma coisa boa, de preferência.
Chegamos, então, ao nível dos dados. Eles são sim, o petróleo do futuro. Mas para que sejam, é necessário tratá-los, relacioná-los. Sozinhos, são quase curiosidade ou nem mesmo isso. Juntos e tratados têm um potencial quase incomensurável e que ainda é desconhecido em sua extensão. Óbvio, devem ser tratados e gerenciados de forma adequada e bastante séria, evitando mau uso. Já tivemos e temos exemplos a todo momento de mau uso de dados e informações de pessoas, empresas e governos. Um software está ganhando espaço, o Clear View. Em linhas muito gerais, ele reúne informações extraídas de redes sociais (portanto, em princípio públicas) de bilhões de pessoas, de tal forma a estruturar um perfil completo, não apenas com dados mais cadastrais, digamos, mas, também, de comportamento, relacionamentos, locais por onde a pessoa circula, meio de transporte, doenças de que é ou pode ser portadora, informações financeiras, etc. Acho que já deu pra entender o potencial enorme deste software. São dados já de mais de três bilhões de pessoas no mundo. Só que se for feito mau uso ou se cair em mãos erradas… E um outro inconveniente é que, reunindo tanta informações sobre os mais diferentes aspectos de alguém, estas (por enquanto) mais de três bilhões de pessoas andam praticamente “nuas” por aí. Como você se sente?
E inclui essa informação para voltar ao começo da coluna. Sabedoria. Porque será sabedoria fazer um bom uso dessas informações. Não transgredir. Pensar profundamente no que é ético ou não, e mesmo desagradável ou invasivo fazer de posse disso tudo e parar por aí. Neste momento que entra (ou não) a sabedoria. Lembram o que eu disse? Resultado de conhecimento, introspecção, reflexão e, sem dúvida alguma, valores, que por fim constituem a ética. Tenhamos mais dados, mas também miremos a sabedoria, façamos uso dela.

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