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Sal amargo

Com Deus se deita, com Deus se levanta. Com Deus lê os jornais. Isso começa a fazer mal a ele. As notícias são sempre …

Com Deus se deita, com Deus se levanta. Com Deus lê os jornais.

Isso começa a fazer mal a ele. As notícias são sempre as mesmas, há anos. Só muda o nome dos corruptos. Nem isso, muitas vezes são os mesmos. Até folclore se tornaram.

As tramas — ou tramóias — são burlescas, com personagens grotescos. Impossível ser mais engraçado, impossível ser mais absurdo. Então, diga lá, caro escritor: como contar tudo isso e ser acreditado? A literatura não pode ser descarada assim.

Outra volta no parafuso: como pegar a tragédia que se agita no fundo da ópera bufa?

Frente à matéria intratável, a pátria amada, ele tenta seu joguinho: simplificar, quer dizer, falsear. Isso mesmo, menos psicologia e mais deboche. Uma espécie de blefe ou desespero — apostar com uma trinca contra uma sequência real.

Mas, por favor, nada de desabafo. Desabafo em geral dá em besteira. Preferível a vingança, mesmo a pequena vingança de um humorista, a vingança da caricatura. Se tiver sorte, pode conseguir uma ou duas boas cenas. Como disse o alemão aquele, os anões também começaram pequenos.

Manchetes

Manchete na Uol: “Mulher que nunca fingiu orgasmo mente”, afirma Talula. Aguardo novas surpresas, tipo: “A terra é redonda”, afirma cientista; “O Polo Norte fica no norte, enquanto o Polo Sul, surpreendentemente, fica no sul”, afirma geógrafo. Em tempo: quem é Talula? Como chamam assim, com toda intimidade, não deve ser alguma pesquisadora.

Amaldicionário

Joca Reiners Terron, no Blog da Companhia das Letras, escreveu um dicionário dos malditos e das maldições da literatura brasileira. É bem divertido. Mas, confesso, não sei se entendi tudo tintim por tintim. Se resumirmos preto no branco, o que vale a pena ler no Brasil, ou Bananão, como dizia o inolvidável Edélsio Tavares, é maldito, fora (suponho) Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Se fizermos as contas pela calculadora do Joca, só não seriam malditos nestes tristes trópicos o Érico Veríssimo e o Jorge Amado.

Nos comentários, foi uma chuva de confetes pro Joca. Apenas um leitor, Henrique Milen, discordou: “Só é maldito mesmo se tiver sido espancado até a morte. Senão é dândi”. Noventa e oito por cento das vezes eu sou do contra. Talvez por isso eu tenha achado simpática a frase do Milen, sem falar que me pareceu que alguns dos malditos do Joca estão na lista mais por amizade do que por maldição.

Aí me lembrei de Alberto Pimenta, poeta português. Perguntado se era maldito, marginal, ele disse: “(marginal é) uma pessoa que foi empurrada pela sociedade para a marginalidade. Pessoas como nós, que têm uma maneira de ver menos conforme mas que se comportam socialmente de forma natural, não se pode dizer que sejam marginais. Temos poucos leitores, apenas”.

Desespero

Confesso, ando com medo. Tufão seguido de tsunami seguido de contaminação radioativa no Japão, enchentes no Brasil seguidas de ineficiência das autoridades mais desvio das doações pros flagelados, temporada de tornados nos Estados Unidos seguida de vários filmes ruins sobre a desgraça. É pouco? Cantora brasileira se separa quarenta e três dias depois de casar, um terço da humanidade assiste ao casamento real e uma zebra tem destaque na imprensa porque foi fotografada no instante em que abria a boca. Considerando essas três últimas notícias, talvez nova temporada de tornados seja um alívio.

Ou não? Isso me lembra “Um, dois, três”, uma velha comédia com James Cagney. Lá pelas tantas um jovem acha justo que a humanidade seja varrida da terra. O personagem de Cagney responde: “Não se saiu tão mal uma espécie que deu o Taj Mahal, Shakespeare e a pasta de dentes com listinhas”.

Autor

Ernani Ssó

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