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Saudosismo, de novo

Cada vez que apelo para um assunto nostálgico, como na última coluna, não faltam interações dos meus poucos, mas fiéis leitores. Para contextualizar, reproduzi na coluna as colaborações do amigo e experiente jornalista Antonio Goulart sobre a linguagem vintage da crônica esportiva do RS.

 A designação dos clubes mereceu um capítulo à parte. Alguns exemplos:   Tricolor/Mosqueteiro da Baixada (Grêmio), Diabos-rubros dos Eucaliptos (Inter), Jalde-negro da Rainha da Fronteira (Bagé), Xavante (Brasil) e Aureo-cerúleo (Pelotas) da Princesa do Sul, Vovô da Noiva do Mar (Rio Grande). 

Nada supera, porém, como foi a narração de Marcos Amaral pela Rádio Gaúcha de um ataque do Água Verde, time paranaense, hoje desativado, contra o Grêmio, pela Taça Brasil de 1968: 

– Sobe para o ataque da equipe hidro esmeraldina…

Só faltou acrescentar que os bravos defensores do Mosqueteiro da Azenha neutralizaram a ofensiva áqua- verdosa. 

Quem relatou o episódio foi o José Evaristo Villalobos, o Nobrinho, competente repórter de grande vivência no esporte, com o qual tive o privilégio de trabalhar na Zero Hora. Sobre o Marcos Amaral, agora lembro eu, foi namorado da jovem Elis Regina, quando conviveram na Rádio Gaúcha, nos estúdios no Edifício União.  Mas essa é outra história, nada a ver com o ataque hidro esmeraldino. 

Mais uma do Nobrinho, também talentoso como contador de histórias. Esta diz respeito ao Claudiomiro, grande figura e um centroavante que deixou saudades. O episódio aconteceu num jogo Santos x Inter, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1968, vencido por 3 x 1 pelo time de Pelé, que deu um baile nos colorados. Ao final da contenda, Claudiomiro foi entrevistado e saiu-se com esta pérola: 

– Perdemos feio, mas pelo menos pude conversar bastante com o Ramos Delgado.

Ramos Delgado era um ótimo zagueiro argentino e capitão do time santista, o que ensejou a pergunta do repórter.

– Mas tu conheces o Ramos Delgado?

A resposta do Claudiomiro, com aquele seu jeitão espontâneo, foi mais surpreendente ainda

– Conheci agora no jogo, mas como a bola nunca vinha pra mim no ataque, tive tempo de falar bastante com ele. Parece gente boa. 

Existe muito folclore em relação ao Claudiomiro, como a explicação que havia escolhido “vermelejos”  e não azulejos (afinal, era colorado)  numa obra em casa, ou que o jogo do Inter seria em “Belém, onde nasceu Jesus”, história também atribuída a outros jogadores menos conhecedores da geografia e das Bíblia, e tem ainda àquela em que teria agradecido “as brhaminhas da Polar”, prêmio de uma emissora por ter sido escolhido o melhor em campo. 

Apesar das “versões”, bons tempos aqueles.

Autor

Flávio Dutra

Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), com especialização em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas políticas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado e da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros ‘Crônicas da Mesa ao Lado’, ‘A Maldição de Eros e outras histórias’, ‘Quando eu Fiz 69’ e ‘Agora Já Posso Revelar’, integrou a coletânea ‘DezMiolados’ e ‘Todos Por Um’ e foi coautor com Indaiá Dillenburg de ‘Dueto – a dois é sempre melhor’, de ‘Confraria 1523 – uma história de parceria e bom humor’ e de ‘G.E.Tupi – sonhos de guri e outras histórias de Petrópolis’. E-mail para contato: [email protected]
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