Hoje nós vamos ter uma conversa, para ver que em tudo existe uma razão. Vamos sentar, repensar a vida, no pensamento e no coração. Assim, começa uma das músicas de um CD de um partido político que julguei ideal para o momento atual e para a minha apropriação e utilização aqui na coluna. Porque sempre que enfrento uma eleição, no sentido literal da palavra, já que torço pelos meus candidatos, busco votos, entrego santinhos e acompanho a apuração roendo as unhas de nervosa, penso no futuro que ainda quero ajudar a construir para as gerações seguintes. Para os que não têm mais sonhos, os que não acalantam ilusões e sobrevivem de migalhas de favores.
Esse pensamento me leva, sem atalhos e sem retornos, a uma figura alegre de 12 anos, cabelos soltos e bem cuidados, fios sedosos, dentes brancos e perfeitos, saúde controlada, vacinas em dia, com os olhos azuis, às vezes verdes de esperança, que caminha pelos espaços de meu território todo o santo dia. No seu quarto, livros para alimentar e estimular sua cultura. Na mochila que leva para o colégio particular, quitado em suadas prestações pelo salário mensal da mãe, cadernos e lápis para escrever muitos futuros. Na geladeira, iogurte, geléias, polenguinho e muito supérfluo que pesam a conta mensal do supermercado.
A menina que floresce, cercada de opções saudáveis de vida, sempre minha companheira, inclusive na militância por escolha própria, anda sobrecarregada de dúvidas e inquietações. Tem caminhado muito comigo pelas ruas de Porto Alegre e conhecido as pegadas da miséria. Anda irritada nos caminhos em torno de seu colégio com o que classifica de “desigualdade”, quando vê meninos e meninas, da mesma idade que a sua, atirados na praça, com expressão de fome. E ela diz que tem vontade de vê-los na escola. Mas eles não têm tempo. Enquanto ela estuda, os sem-escola tentam conseguir uns trocados para que a mãe lhes compre itens bem diferentes daqueles supérfluos que enchem a sua geladeira.
No seu adolescer, a minha menina manifesta vontade de adquirir bugigangas de patricinha. E no nosso passeio quase que semanal ao shopping, ela administra sua demanda de consumir conforme a oferta de sua mesada. Tem utilizado a máquina de calcular para ver quanto pode gastar. E sempre falta. Tem escutado algumas negativas minhas quando avisa que gostaria de comparecer a algumas festas noturnas para pré-adolescentes. E se cala diante da minha preocupação com a violência na cidade. No seu silêncio perturbador, a imagem dos meninos e meninas que vizinham a praça do colégio. Não a atual. Mas, desenhados no futuro de violência e poucas escolhas.
Definitivamente, não é esse o País que eu quis. Muito menos para minha privilegiada filha, que usufrui de qualidade de vida, e os prováveis netos e bisnetos. Mas, se a vida ensina, eu sou aprendiz. E ainda acredito que o voto é a arma para costurar a mudança, na minha concepção já alinhavada, mesmo que com alguns pontos fracos. E ainda carrego a ilusão de que, um dia, possa noticiar de que todos têm acesso à educação, saúde e moradia, o que na minha mente começa a ganhar formas, ainda que com contornos grotescos, de realidade. E, por isso, tenho convicção de que já coloquei minha assinatura na ata da construção de um País melhor, com justiça, igualdade e qualidade de vida para todos. Sem distinção.
Gabriela Martins Trezzi, a figura citada acima, presente na minha vida em retratos espalhados pela casa, em sua voz suave em todo amanhecer, em seus carinhos esbanjados, nos seus passos com pressa de viver, evolui espantosamente à base de boa alimentação, educação, moradia, saúde, pequenas regalias e, sim, qualidade de vida. Ela está tendo, graças ao Deus que escreve os destinos, a sua opção. A sorte de decidir seus sonhos do amanhã. A felicidade de adolescer com os ritos de passagem naturais dessa fase. E cresce com fome e sede de justiça. Ela quer só dinheiro. Ela não quer só felicidade. Ela quer inteiro e não pela metade.
Para que mais Gabrielas, Marianas, Sofias, Anas, Marias, Pedros, Jorges e Antônios e todos os nomes desse imenso gigante adormecido, possam ter as suas escolhas, é a minha proposta, no início da coluna. É hora de repensar a vida, no pensamento e no coração. No voto, na urna. Para ser feliz.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial