Feriado serve mesmo para quê? Não vale dizer descansar, viajar, dormir até tarde, porque com certeza não foi com esta intenção que se inventou esta parada na rotina de trabalho. Não gosto de feriados. Não sou dos que curtem fazer mala ou mochila e viajar milhares de quilômetros para “descansar a cabeça”, “se divertir”, essas coisas, e pegar aeroporto lotado ou estrada congestionada e mal conservada e ter de voltar esgotado de tanta programação para um máximo de três dias. Ok. Sou sem graça. E daí?
Como jornalista “de redação” acostumei a trabalhar em sábados, domingos, feriados, aniversários, Natal, Ano Novo e por aí vai. Meu filho, quando tinha seus sete, oito anos, uma vez me perguntou: “Mãe, como é que todo mundo da minha aula viaja em feriado e a gente vai sempre pra casa da vó?” Filho de pai e mãe jornalista é isso.
Então, no feriado este de quinta-feira, imposto pela igreja católica para comemorar uma de suas datas inventadas para teoricamente rezar e se recolher, tive a pachorra de assistir, num canal pago, a história das crianças de Fátima que tiveram as tais visões lá em 1917 e os tais segredos revelados por Nossa Senhora, amém, para elas.
Como nunca freqüentei igrejas, casei somente no cartório, tampouco batizei meus dois filhos, e fui criada no espiritismo, já vejo estas histórias de visões, milagres e revelações capitalizadas pelo catolicismo com uma natural desconfiança, a mesma que dedico a histórias de extraterrestres. A mesma não: nas de ET eu desacredito menos.
Lúcia de Jesus dos Santos tinha mesmo que receber revelações – com este nome, coitadinha! E o povo, é claro, sempre desatinado por milagres (a vida normal, quem não sabe, é um saco mesmo!), embarcou na onda da menina portuguesa que, lógico, virou freira. Ia virar o quê, com este nome e com os dons espetaculosos que revelou para deixar todo mundo com a pulga atrás da orelha?
Acho tudo uma confusão que nem eu revendo o programa quinhentas vezes poderia deslindar os mistérios que envolvem principalmente a consagração da Rússia que, naquele ano, lançava a pedra fundamental do fracasso sanguinário da União Soviética – quem viu Dr. Jivago, conhece a trama, muito mais interessante do que a vida real. Mas o que mais me impressiona é o quanto continuamos dentro da caverna, adorando o fogo e olhando para o céu esperando que, além de raios e trovoadas, uma entidade fantástica se exiba em efeitos de luz e sons e nos revele o caminho para a felicidade total, de preferência sem muitas provas e sustos.
Para completar toda a desgraceira de nossa pequenez, o Brasil escolheu o logo da Copa do Mundo que talvez sedie, talvez não, “homenageando” Chico Xavier. Coitado do Chico, não merece isso! Na real, na real, embarcando nos mistérios, nos segredos, no que não podemos entender porque uma religião resolve ficar com a chave de tudo e nos manipular, não queremos é ter trabalho com nada. Deixamos nas mãos do papa, do pastor, do cara que joga búzios a nossa sorte, o nosso destino.
É chato demais ter de trabalhar, fisica e ou mentamente, para viver. É realmente sacal saber que se vai viver quem sabe noventa anos e ter de aturar rotinas mal pagas, no geral, para comer, beber e ter onde dormir, sem que num milagrinho nos tire desta realidade. Entendo Lúcia de Jesus dos Santos e sua visão da Virgem Maria: era melhor que ser pobre e camponesa naquela virada de século.
Ficou famosa, deixou metade do mundo com a alma na mão de medo, deu gás para a Igreja continuar assombrando todos com o medo do fogo do inferno e dos pecados. Só que morreu sozinha, encarcerada em sua fantasia e suas revelações que parecem o samba do crioulo doido. A igreja continua, apesar de toda sua safadeza envolvendo violação de crianças por padres cafajestes, encantando e fazendo com que muita gente ocupe o feriado fazendo tapetes lindos e coloridos para um monte de “representantes de Deus” pisotear.
Feriado religioso, enfim, é isso. Para crédulos curtir e para chatas como eu reclamar.
