Colunas

Sem açúcar e sem afeto

Não sei quantos livros traduzi, mas ando perto dos sessenta. Mesmo que a quase totalidade desses livros seja irrelevante em termos literários – sou …

Não sei quantos livros traduzi, mas ando perto dos sessenta. Mesmo que a quase totalidade desses livros seja irrelevante em termos literários – sou um operário, meu caro –, pode-se dizer que tenho alguma experiência no ramo, que enfrentei todo tipo de problemas e desafios. Afinal, me vi às voltas com textos que vão do clássico ao best-seller, de Cervantes a Isabel Allende, por exemplo. Mas tenho uma experiência muito maior como leitor de traduções. Um leitor bastante chato, por sinal, bastante implicante porque, como traduzo e escrevo, a deformação profissional mete o bedelho a todo instante. Gostaria de falar disso.

Vocês sabem, qualquer tradução pode ser criticada. O número sete, numa conta, vale sete tanto aqui como na China. Mas sete não vale sete num texto. A palavra sete, para nós, evoca sorte, mentira, esoterismo. Vá saber o que evoca na China. A cultura e o lugar alteram, ou colorem, o significado de uma palavra. O tempo, então, nem se fala. Um exemplo simples: no tempo do Cervantes, armar-se queria dizer vestir a armadura, porque a armadura era considerada parte das armas de um cavaleiro. Se você traduzir armar-se por armar-se no Quixote, estará sendo impreciso ou redundante, como acontece numa frase do primeiro capítulo, onde “Dom Quixote se arma e pega a lança”. Hoje os dicionários ainda registram esse sentido de vestir armas, mas, sem o uso cotidiano de armaduras, é um sentido que vai se tornando misterioso. Pelo menos nunca ouvi alguém se referir a usar um colete à prova de balas como a se armar. Quer dizer, as palavras são uma matéria muito maleável, e a eficácia de um texto, original ou traduzido, vai depender menos do que o dicionário garante, quando garante, do que do ouvido, da cultura e, que Deus nos ajude, da astúcia e do bom senso do escritor ou tradutor.

Ninguém faz uma tradução sozinho. Depois de traduzido, o texto passa pelas mãos de um editor e de dois revisores, no mínimo. Como todos cometem erros, essas leituras são uma garantia, tanto que diferentes revisores encontram diferentes erros. Em algumas editoras o tradutor entrega o texto e nunca mais sabe dele. Não tem ideia do que o editor e os revisores fizeram. Eu pelo menos não tenho e faço questão de nunca reler esses livros. Em outras o tradutor é consultado antes de se fazerem alterações. Mesmo que essas consultas sejam cansativas, acho bom, porque as sugestões dos revisores podem ser ótimas ou podem detectar algum problema que o tradutor pode tentar resolver. Eu me impressiono com a quantidade de boas sugestões dos revisores, coisas às vezes básicas que deixei escapar. Mas me impressiono também com a quantidade de idiotices, quase sempre demonstrações de incompreensão do texto ou gramatiquices que ferem o ouvido mais rombudo.

Se para ser tradutor, editor e revisor é necessário ser um pouco mais que alfabetizado, como se explica a quantidade de erros absurdos? Eu tenho uma coleção de erros divertidos e quase sempre indecentes. Vou dar três exemplos para vocês terem ideia.

Na página 237 de Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, traduzido por Sérgio Molina para a Companhia das Letras, se lê a seguinte frase: “Era um desses momentos em que a tarde está indecisa, conforme as palavras de Cifuentes: a luz oscila entre o cinza, o púrpura e o laranja como uma vaca boba”. Apenas uma vaca boba já me parece hilariante, mas numa frase em que se usa uma palavra luxuosa como púrpura, convenhamos, a vaca fica mais boba ainda, já que não estamos num texto de humor. Isso me levou direto ao dicionário. Em menos de um minuto eu tinha a resposta: não, a vaca não era boba, era a vaca da festa de casamento. “La vaca de la boda” é uma expressão que nasceu de uma festa medieval, tipo farra do boi, em que a multidão espanta uma vaca de um lado pro outro, até a pobre não saber pra que lado correr.

É fácil o olho da gente trocar uma letrinha e assim formar outra palavra. Por isso é preciso reler. Numa releitura quase sempre um erro desses fica claro. Digo quase porque acontece às vezes de o erro fazer sentido dentro da frase. Por isso, além de reler, temos de comparar frase a frase a tradução e o original.

Nas novelas de Georges Simenon, encontrei mais de uma vez jornal diário (“quotidien”) traduzido por cotidiano, como em O Presidente, na tradução de Áurea Weissenber, para a Nova Fronteira, ou em Georges Simenon — Uma Biografia, de Pierre Assouline, traduzido para a Siciliano por Raul de Sá Barbosa. A melhor foi um “cotidiano de grande circulação”, mas não lembro em que volume. Como se vê, tanto os tradutores como os editores e os revisores ligaram o piloto automático na hora de trabalhar.

Mas a obra-prima está no romance Olhar de despedida, de Ross Macdonald, tradução de Marcos de Almeida para a Artenova. Numa cena o detetive entra num estacionamento e vê “uma lacraia conversível”. Se o tradutor fosse de Portugal, o detetive veria “uma lacraia descapotável”. Imagino que o detetive viu um daqueles carros que se chamava barata. Mas é forte. A barata está separada da lacraia por mais de noventa pernas.

O que chama a atenção nesses erros não é o desconhecimento da língua espanhola, francesa e inglesa. Qualquer um pode se confundir na hora. O problema é o total desconhecimento da língua portuguesa. Estamos lidando com frases simples, diretas. Não há enrolação nenhuma. Mas não fazem sentido.

Isso é brabo, acho. A gente pode aceitar que um texto traduzido não seja estilisticamente irreparável, que perca beleza, que adquira ecos incômodos. Mas que não faça sentido?

Um leitor mais antenado se dá conta desses erros. Ou mesmo o menos antenado deles. Afinal, uma vaca boba deve ser personagem de desenho animado e uma lacraia conversível é coisa de ficção científica. O problema são erros menos evidentes, coisas que podem passar por opções do autor, poesia barata a que o tradutor teve de se resignar. Vamos aos exemplos.

Histórias de Cronópios e de Famas, do Cortázar, foi traduzido pela Glória Rodriguez para a Civilização Brasileira. Na historinha “Conservação das Lembranças”, se diz que os famas, “após fixada a lembrança com cabelos e sinais, embrulham-na da cabeça aos pés”. Fica aceitável, não? Meio esquisito, mas com caras metidos a poeta nunca se sabe. Não, não é aceitável. “Pelos y señas” é uma expressão comum em espanhol. Os famas fixam as lembranças em todos os detalhes, tintim por tintim.

Alguém que anda por aí, também do Cortázar, foi traduzido por Remy Gorga Filho para a Nova Fronteira. No conto “As caras da medalha”, na página 155, se lê: “Em um café, depois de brigarmos rindo para saber quem pagaria a conta, olhamo-nos como velhos amigos, inesperadamente camaradas, nos dissemos palavrões privados de sentido, garras de ossos brincando”. O que vocês acham? Tenho minhas dúvidas de que as garras de ossos possam passar por poesia. A mim causa um incômodo instantâneo. Alguma coisa me parece fora de esquadro.

É o seguinte: o Remy confundiu urso, “oso” em espanhol, com osso, “hueso”, em espanhol. Garras de ursos brincando pode não ser uma grande metáfora, mas, convenhamos, indica claramente o que se passa com aquele casal.

Agora, me parece que o Remy cometeu um erro mais sutil no título: “As caras da medalha”. Cara é uma palavra bastante forte em português. Entra em mais de uma expressão: cara de pau, cara de tacho, cara a cara, dar as caras, com a cara no chão, encher a cara, fechar a cara, estar na cara ou de cara, enfim, a lista é longa. Tudo isso pesa. Dá um ar mais popular ou mais cru à palavra. Mas, mais importante, quando falamos cara, pensamos no rosto todo. Os lados do rosto são as faces. Tanto que a expressão duas caras quer dizer falta de sinceridade, não o lado esquerdo e o direito. “As faces da medalha” não soa melhor e não é mais plausível? Mas se o conto tivesse sido escrito em português, provavelmente se chamaria “As faces da moeda”, nunca da medalha.

Assim chegamos ao que me preocupa mesmo. É quando o texto traduzido faz sentido, quando o português dele não humilha ninguém, mas algo falha. Não lembro quem disse que o Borges, nas traduções brasileiras, parecia um anúncio de néon apagado. As informações estão todas lá mas falta o brilho. Claro que essa pessoa foi bastante otimista.

Existe a língua que falamos e que alguns escritores tomam como ponto de partida. Existe também uma língua que aspira ser uma espécie de latim, um português que se quer meio atemporal para, assim, resistir melhor às mudanças e ser compreendido daqui ao Amapá sem necessidade de dicionário. E existe uma língua que só vemos nas traduções, uma língua sem açúcar e sem afeto. Acho essa língua muito perigosa. Como ela é discreta, em grande parte, nós vamos nos acostumando com ela. Ao menor descuido, estaremos falando e escrevendo nessa língua.

Exemplos? Colina em vez de morro, bosque em vez de mato, relva em vez de grama, eu creio em vez de eu acho. Nos filmes vemos, ou mesmo em livros, os americanos aos berros: maldição, maldito!  Mas a gente berra merda, a gente berra desgraçado. São coisas bobas, sei, mas ao se acumularem vão anulando o cheiro e o sabor de um texto. Pior: vão contaminando as entrelinhas com um tempero artificial como de massa instantânea.

Relva é uma dessas palavras que a gente só encontra no dicionário e em traduções miojo, digamos, pra cunhar uma expressão. Pelo menos, jamais vi uma plaquinha num poste anunciando “corto relva”, ou “proibido pisar na relva” ou uma pessoa dizer relva a não ser de gozação, nem mesmo um dono de supermercado em Santa Catarina. É que o nome do negócio dele era “Reuva”. Confesso que, apesar da falta de acento, eu sempre lia “reúva”. Levei muito tempo pra me dar conta do que queria dizer. Sou péssimo em trocadilhos e jogos de palavras.

Não é que encontrei algo pior que relva ou reuva? Um dia desses topei com um terreno “desrelvado” na tradução de um romance muito do ruinzinho da Patricia Highsmith. Desrelvado? Minha nossa, se a moda pega! Imagina um terreno sem nenhuma árvore: desboscado. Uma planície? Um terreno descolinado. Um deserto? Um terreno desliquidado. Convenhamos, certos tradutores, editores e revisores deviam ser levados ao pelourinho. O número de chibatadas pra cada um? Até ficarem com o lombo despelado.

A língua devia ter áreas de preservação permanente, fiscalizadas por policiais armados com ordem de mandar bala em qualquer um em atitude suspeita.

Autor

Ernani Ssó

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.