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Sem asas na avenida

O carnaval jamais foi anotado em minha agenda com especial entusiasmo. Sinto-me tão à vontade sambando e gritando ziriguidum quanto Zeca Pagodinho antes da …

O carnaval jamais foi anotado em minha agenda com especial entusiasmo. Sinto-me tão à vontade sambando e gritando ziriguidum quanto Zeca Pagodinho antes da primeira dose. A exemplo de qualquer cidadão do planeta, aprecio a grandeza e a competência das escolas de samba do Rio, ou a animação do carnaval de rua de baianos e pernambucanos, mas paro por aí. Por alguma razão inexplicável, apaixonei-me pela Portela desde que me lembro de entender o significado da palavra carnaval. Quem sabe pelo azul que só não é único porque está presente no céu, na camiseta do Grêmio e em uns poucos olhares privilegiados. Paulinho da Viola deve ter ajudado, mas o tom do azul foi decisivo.

Somente a corintianos, que experimentaram a angústia de 23 anos à distância segura de um troféu, foi destinado semelhante tormento: a Portela está na fila há 24 temporadas, quando dividiu o título com a Mangueira. Campeoníssima, única e indiscutível, a escola de 21 títulos foi pela última vez em 1970, pouco antes do tri no futebol, ambos os feitos comemorados sob as limitações impostas a um garoto de dez anos de idade. Desde que as transmissões se tornaram regulares, a torcida diante da TV tem se revelado inútil.

Desta vez, deu tudo errado de novo. Escrevo na terça-feira, ainda sob impacto do desfile que, afora os contratempos, foi muito bom, e antes da apuração. Resisto à tentação do pensamento mágico. A escola tivera um carro incendiado no sábado, entrou com o abre-alas capenga, perdeu outro carro, correu nos minutos finais. Os envelopes dos jurados, ainda que capazes de levar à loucura diretores de escola, raramente abrigam surpresas de tal quilate.

Assim como grandes clubes de futebol vêem desaparecer os espaços vazios nas arquibancadas quando rebaixados à segunda divisão – foi o que ocorreu com o Palmeiras, por exemplo – o carisma da Portela parece se ampliar na adversidade. Mesmo na tragédia, a escola faz História. A águia sem asas já fornecera combustível suficiente para um desfile dramático quando alguém teve a infeliz idéia de bater os portões na cara da velha guarda. Talvez eu seja emocional demais para comandar uma escola de samba, mas teria preferido a eliminação sumária à decepção de quem fez a história da escola, muitos dos quais foram dormir sem a certeza de que estarão neste mundo no próximo desfile. O presidente da Portela, cujo nome prefiro não lembrar, arrependeu-se no dia seguinte e mudou a versão que o comprometia. Permaneceu o fato.

A cena dos velhinhos passando à capela pelo sambódromo, embalados apenas pelos aplausos de uma platéia emocionada e acompanhados de uma solitária águia, adquiriu caráter épico. Qualquer antologia de carnaval daqui para a frente terá de incluir aqueles minutos de alta dramaticidade. O cortejo silencioso deixou para trás um rastro de alegria e tristeza que só o azul tem, com todo o azul que o azul tem. O azul que só a Portela, o Grêmio, o céu e certos olhares têm.

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Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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