Quando conseguimos sintonia com a música – ou outras formas de arte – estamos próximo do divino. Por próximo do divino, nos aproximamos da matéria-prima, do amálgama, do DNA do barro que fomos gerados. A transformação da escala musical em sons que nos fazem esquecer nós mesmos, num processo fecundo de despersonalização é um ingrediente até hoje incompreensível. Talvez o seja assim para sempre e talvez seja melhor que seja incompreensível. A ignorância nem sempre é danosa.
Mas é necessária uma sintonia profunda. Uma conexão. Se conseguirmos ouvir uma música desta forma, conseguimos entrar em uma parte do espírito do compositor. Conseguimos contato com este compositor, que por sua vez sentiu soprar em sua criação os ares de um arcabouço universal, a partir do qual a escala musical foi transformada de estática em dinâmica, de rígida em fluida. Este compositor abasteceu-se, por sua vez, com a centelha da criação. O toque. A energia, a luz, os sons em melodia, como palavras se ajeitando com harmonia, beleza e leveza pelas mãos de um poeta.
E nestes momentos, em que nossos sentimentos nos conduzem, guiam a nossa vida, nestes momentos mesmo que breves, vão aos poucos caindo as capas que utilizamos na vida cotidiana, caem as dores(ou se acentuam), vem com a intensidade de um furacão o amor, nos deslocamos de nosso plano para um outro, superior. Nossa alma flutua, os outros sentidos aquietam-se, a memória, a imaginação, explodem em um balé, juntas dançam a mais bela das danças.
Permitimos que nossos tantos limites, bloqueios, fiquem no armário da vida cotidiana por estes instantes, trancados lá no fundo da gaveta. Nos sentimos sem limites, sejam eles do peso da vida, sejam eles da onipotência com a qual somos embriagados. Nestes momentos é que estamos mais próximos do que é divino.
Estas ocasiões muitas vezes passam por nossas vidas sem que as percebamos adequadamente. Com o peso da civilização – incivilizada – estamos a reboque de convenções e cobranças. A música termina e não ocorreu a conexão. Nossa vida é um conjunto de canções, mais belas e mais enfadonhas, mais alegres e mais tristes. Depende de nós darmos o tom da vida. Antes que a nossa trilha sonora se esgote.

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