Só penso nisso, ultimamente. Ou melhor, penso mais nisso, ultimamente. É que ando escrevendo uma novela erótica. Não estou nessa por causa do sucesso do romance aquele, classificado como pornô para mamães, como se só o fato de uma mulher ser mãe reduzisse as possibilidades de prazer do sexo. Não, não. Meu interesse por sexo vem de tempos. Na verdade, acho engraçado os jornalistas dizerem que agora o sexo entrou na moda, literariamente falando. Esses caras nunca leram a Bíblia, As mil e uma noites, o Kama-sutra, Satiricon, Decameron? O sexo já era moda no tempo da pedra lascada, meus caros. Vide a arte rupestre, aquelas maravilhosas estatuetas de donas peitudas e bundudas.
Quando eu tinha uns vinte e dois ou vinte e três anos, conheci o Caio Fernando Abreu, por causa de uma antologia de contos que ele estava organizando. Ele foi extremamente generoso comigo, a ponto de me elogiar em jornal. Falando de como eu tratava o sexo num ou dois contos meus, ele me incentivou a seguir adiante, porque, me disse, “a literatura brasileira é muito cabaçuda, começando pela minha”. Depois fez uma previsão que, infelizmente, não chegou nem perto de se concretizar: que aqueles contos iriam fazer tremer o salto agulha das Nélidas Piñons da vida.
Me perdoem esse momento de vaidade. Não sou de ferro, como se vê. Voltemos ao sexo.
É um assunto complicado. É uma das poucas coisas que é mais fácil fazer do que falar. Em literatura, o sexo é em geral trágico ou escrachado. Ou há gente se esfaqueando, ou arrancando os cabelos em meio a crises de histeria e metafísica que chocariam o próprio Dostoievski, ou tudo descamba pra Cassandra Rios, aquilo naquilo sem dó nem piedade.
Claro que é mais fácil descrever um estupro do que uma boa transa. A literatura, ou a arte em geral, sempre lidou melhor com as desgraças. A violência deu e continua dando as melhores páginas.
Agora, a maioria dos autores que se recusam a ser trágicos ou grosseiros cai no extremo oposto: são solenes e líricos. Sexo solene? Faça-me o favor. Nem os velhos papas do Renascimento faziam sexo com solenidade. Nem? Esses papas eram uns bandalhos da pior espécie. Lirismo, tudo bem, mas lirismo em geral é veneno: tudo fica tão bonitinho que bate na trave da irrealidade ou do ridículo (vide Cristóvão Tezza chamando vagina de pêssego em calda). Outro perigo: o sexo se tornar tão asséptico que vira um clipe da Disney em que abelhinhas industriosas e inocentes são recebidas por flores perfumadas e lindas. Atenção, líricos: não há sexo sem melação, sem suor e outras coisinhas. Certo, não somos apenas chimpanzés atracados numa jaula, mas não precisamos exagerar. Mesmo nossas mães não são como a mãe de Deus, que subiu aos céus com o hímen invicto e um olhar tão doce que só de pousar sobre a gente nos caria os dentes. Vamos parar de frescura e ser adultos, pra variar?
Por que não podemos encarar o sexo com naturalidade? Por que não sexo alegre? Por que não sexo lúdico? Um escritor famoso, de cujo nome faço questão de esquecer, disse que não se deve misturar humor com sexo, que é indigesto. Olha, acho que esse senhor pensa que sexo é aquilo que ele faz uma vez por mês com sua patroa, senão ele ia ver a graça da sua afirmação.
Enfim, são com essas dificuldades que me debato. Sexo, como qualquer outra coisa humana, tem de tudo um pouco. É até vergonhoso ter de escrever isso, mas vamos lá, com todas as letras: sexo tem belezas e tem feiuras, tem ternuras e tem violências, tem alegrias e tem tristezas ou tédios, tem momentos de solenidade e de sacanagem, tem prazeres loucos e fracassos doloridos ou ridículos ou as duas coisas ao mesmo tempo. Ao contrário do que dizem os religiosos, não há pecado no sexo. Pode haver sexo pecador, claro, no sentido de ser um crime. Mas ninguém nasce culpado porque seus pais se divertiram em certa noite, mesmo que tenha sido num fim de festa, no banco traseiro do Fusca.
Bom, depois de limpar a área de nossos sentimentos, começa outra encrenca braba: a linguagem. Sei, todo mundo já entendeu: a linguagem está contaminada com todos esses medos, pudores, violências e idiotias. Precisamos passar um sabão na língua. Isso é muito, mas muito difícil. Se não podemos evitar certas palavras, simplesmente porque não existem outras, mudemos pelo menos o tom, pra desativar nelas a carga de ofensa, de agressividade. É preciso que as palavras do amor sejam palavras, não palavrões, concordam?

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