A decoração e a moda têm usado elementos rústicos. Nas casas, pisos rústicos, madeira, tijolos rústicos e aparentes; na moda, tecidos (mesmo que sintéticos) de aparência muito rústica, como juta e algodão. Estes dois fatos indicam uma tendência de comportamento do consumidor.
Depois de vivermos a Revolução Industrial, vivemos a era da produção, com a explosão do consumo; posteriormente, vivemos a era da qualidade. Paralelamente, foi havendo uma grande evolução tecnológica. Me lembro (e não faz tanto tempo assim) que, quando fui estagiário do Centro de Processamento de Dados da Ufrgs, não havia Windows, muito menos Internet. Trabalhávamos com os rudimentos da eletrônica. A tecnologia foi gradativamente invadindo nossas vidas e nosso ambiente de trabalho e residencial. Houve um crescimento muito forte da inserção tecnológica. Lembro também que meu pai tinha há uns 20 anos atrás um LP (long-play, disco de vinil) que reunia efeitos sonoros especiais e era o máximo, tanto ele quanto eu achávamos que era incrível, ultra-moderno e imbatível. Era tecnologia de ponta em seu estado-da-arte. Hoje, não passa de peça de museu. Qualquer adolescente, em 15 minutos na frente de um computador, faz efeitos sonoros muito mais interessantes do que aqueles.
Portanto, nossa vida foi recebendo tecnologia, os ambientes foram se modernizando. Computadores são hoje móveis tão comuns quanto cadeiras e mesas nos escritórios. A tecnologia está impregnada na vida de todos nós.
A propaganda e o marketing também pegaram carona nesta explosão tecnológica. O marketing, se utilizando cada vez mais dos recursos disponíveis, desenvolveu databases, programas de relacionamento, controles informatizados de transações, etc. A propaganda refletia este consumidor ávido por novidades, por tecnologia. Era in estar atualizado com a tecnologia. Viramos um pouco os Jetsons, aquele desenho animado que passava na TV.
Agora, chegamos num momento de tédio tecnológico. A tecnologia não é mais diferencial, é commodity, mesmo que muitas empresas ainda estejam dando os primeiros passos tecnológicos. As grandes empresas, como administradoras de cartão de crédito, provedores de internet, empresas de telefonia nos têm acompanhado através de seus softwares e bancos de dados. Quantos de nós já receberam aquele telefonema, de uma empresa com que tivemos algum tipo de relação (que esquecemos) e nos liga para oferecer novamente seu produto ou serviço?
Mas a tecnologia não é natural ao ser humano. Embora ela tenha sido criada por este, o ser humano não se sente à vontade frente a ela. Pode ser porque ela pode servir para controlar-nos e saber de cada passo que damos. Nos sentimos como se o Grande Irmão estivesse tudo vendo e tudo sabendo. Nenhum ser humano gosta de se sentir assim. Todos temos aquele momento em que, sabendo que ninguém está vendo, dançamos, rimos alto, colocamos o dedo no nariz, nos olhamos no espelho e nos achamos ótimos. Ou péssimos.
Outro motivo de não sentirmos a tecnologia natural é que de fato ela não está inserida nas nossas motivações e sentimentos primários, primitivos. Porque, por mais sofisticados que sejamos, por mais moderna a casa em que moremos, nossos sentimentos são os mesmos (ou quase) do Homem de Neanderthal: amor, ódio, medo.
Sentar sob a sombra de uma árvore gera um sentimento de muito maior interação do que estar diante de um computador. Cavar na terra ou na areia da praia parece mexer com os nossos antepassados, talvez com arquétipos ou algo assim. E não falo de papo-cabeça, não sou transcendental, nem zen (nada tenho contra quem é). Estou falando de sentimentos que nós, cidadãos “comuns”, temos ao estar em contato com a natureza.
Assim, depois de vivermos a overdose tecnológica (e de tanto destruirmos o meio ambiente), agora queremos ar puro. Queremos árvore, água, fogo. Isto é o que nos renova. Queremos novamente morar em casas (a construção de condomínios residenciais atesta isto), plantar árvores e pés de tomate, ter a casa decorada com elementos rústicos e vestir roupas que remetam a esta idéia. Comprar no supermercado hortifrutigranjeiros sem agrotóxicos também demonstram isto.
Empresas ambientalmente responsáveis encontram aí um diferencial competitivo. As grandes empresas já optaram há tempos por treinar seus executivos em locais onde haja forte contato com a natureza (corredeiras, matas, etc).
Precisamos novamente ver o sol, respirar, pisar na grama, saber qual a diferença entre a folha da bergamoteira e do abacateiro, ver uma galinha ciscando, estas coisas. Estamos sentindo falta disto.
Só que isto tudo indica um direcionamento ao marketing e à propaganda: de que tecnologia não é mais um apelo tão importante quanto antes, pode até ser um apelo negativo. De que o ser humano está querendo voltar as suas origens. A gestão de pessoas nas empresas também demonstra este momento, com a valorização dos colaboradores e o entendimento que é preciso conhecer cada pessoa, com suas características, história, diferenças e idiossincrasias.
O ser humano já quis ir à Lua. Desenvolveu chips, softwares, a indústria petroquímica. Agora, (lembrando Elmar Bones (“Tudo sobre a China, nada sobre a esquina”)), ele quer um pouco mais de algo que perdeu: suas raízes. É preciso estar atento e ver se este comportamento é uma tendência passageira ou se veio para ficar. Seja como for, é preciso estar falando direto com o consumidor, o mais próximo possível do que ele sente, seus anseios mais íntimos, como única forma de atingir sucesso.

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