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Sobre políticos e camelôs

Esta semana, estive na reabertura do café do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo e, na hora de ir embora, desci para a Rua da …

Esta semana, estive na reabertura do café do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo e, na hora de ir embora, desci para a Rua da Praia antes do restante do grupo com quem saíra. Era início de noite e os camelôs ainda ocupavam o leito da rua, com aquela infindável mistura de produtos. Disco de vinil num lado, calcinhas e sutiãs mais adiante, cd marca diabo, piranhas para prender cabelo de toda cor e tamanho, enfim, uma versão pós-moderna do mercado persa que parece nunca mais ter fim. Fiquei olhando aquelas pessoas dispostas no meio daquilo tudo, umas sentadas em cadeirinhas de praia, homens saudáveis, mulheres velhas, gente que sobrevive neste país que faz pose e limita com o Haiti na linha da miséria. De repente, descobri uma bandeira do PT enfiada numa sacola que, com certeza, serve para armazenar as roupas expostas na chegada e na saída da dona do ponto. Era uma senhora de seus 60 e poucos anos, que descansava numa daquelas cadeirinhas de alumínio baixinho. Ao lado dela, um vendedor de calças e blusões de abrigo, havia colado o plástico que serve de suporte para as roupas sobre o chão com adesivos de Alckmin e Yeda. Os dois partidários declarados conviviam, assim, na mais aparente harmonia, comunicando a todos suas preferências em silêncio.

Marcando seus territórios, marcavam, também suas propriedades de esperança. Enquanto na Esquina Democrática alguém se esganiçava falando mal de políticos e pregando a guerra santa, os dois camelôs vendiam seu peixe sem deixar de se posicionar. Estamos quase chegando na hora da decisão final deste penoso processo de escolha de siglas e pessoas que vão, mal ou bem, decidir nossa sorte por quatro anos. As ruas estão, bem mais que no primeiro turno, pintadas de adesivos e bandeiras, o que é bonito e motivador. Tenho conversado com muitos que se mostram desalentados com a obrigação de ter de voltar a votar, outros tantos decididos a não tomar parte neste momento e alguns muito convictos de que estão ao lado de quem vai vencer. Nada de novo, portanto. O que é uma pena: segundos turnos deveriam servir para afinar a questão da escolha, motivar os candidatos a trazer algo novo para quem vai ter de voltar à fila nos postos de votação, trazer um gosto de decisão nos pênaltis, com muita adrenalina e aposta total na habilidade dos jogadores. Mas não: há um cansaço não só em nós, que vamos ter de resolver esta parada, mas em quem se colocou na posição do goleiro e do cara que vai chutar a bola. Parece que estes estão mais a fim de se abaixar para amarrar o cadarço da chuteira do que para meter o pé na jaca, digo, na bola. E vamos nós para a jogada final assim, capengueando, meio sem graça, rezando mais para que tudo acabe logo e que venham os novos soberanos deste reino em que tudo está para ser feito mas faz de conta que já conquistou o resto do mundo. Portanto, às urnas. Chutando o desânimo, a descrença e a desilusão e puxando, lá do fundo, a santa indignação que pode ser nossa última alavanca para mover a pesada pedra que botaram para tapar a entrada da caverna dos desmandos e das falcatruas feitas em nome de gente como os dois camelôs da rua da Praia que nada ganharam e vão continuar na calçada, vendendo seu peixe noite adentro.

Autor

Maristela Bairros

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