São os sonhos, e não a realidade, que nos impingem de forma mais brusca a consciência de nossa finitude. Em alguns exercitamos a fantasia, damos vazão a desejos secretos, tornamo-nos o que não podemos, ou não temos coragem de ser de olhos bem abertos. Em outros tantos, personagens transportam-se do mundo real para protagonizar enredos diferentes, quem sabe em outros papéis ou com outros nomes, a habitar paisagens por vezes retorcidas, mas ainda assim seguirão sendo os mesmos, oníricos e remodelados, mas com gosto de realidade. Lugares nos quais moramos, trabalhamos, sofremos ou gozamos servem de pano de fundo a interpretações exageradas pela saudade ou pelo arrependimento, pelo amor perdido ou pela mágoa deixada, alteradas pelos tons do passado, de um sépia que simula dourado. E lá estarão eles a cada noite, os fantasmas dos poetas e artesãos de nossa trajetória a desfilar em câmera lenta, sob o efeito esfumaçado de photoshop, a nos recordar da passagem inexorável do tempo, da desdita de sermos humanos, replicantes orgânicos, conscientes da condenação à morte desde as primeiras palavras. Lembranças da infância não afastam o risco do reencontro noturno. A puerilidade do tema está longe de assustar os fantasmas. Se o sonho se passa na casa onde me criei, lá estarão minha avó, meu pai, meu tio, pois do avô recordo pouco. Refugio-me pulando alguns anos, salto da cadeira de balanço na varanda na qual devorava gibis da Rio Gráfica, com escala ao redor do campo de várzea onde ainda estará disputando a Copa Arizona o Haroldo Nunhofer, camisa 3 do Palmeirinhas, chego à mesa de madeira escura já descascada na sala da revisão, à frente da IBM de esfera, e lá estarão o Aldir Chagas e o Luiz Carlos Py e, no andar de cima, ao redor das Olivetti e Remington, o Evaldo Gonçalves na mesa ao lado da minha e o José Manosso por trás da divisória de vidro. Daí para uma reunião familiar é um pulo, mas o fantasma de meu sogro estará por perto a me sorrir sob a luz tênue da eternidade. De nada adiantará me esconder em outra cidade, em outras redações, porque vindo pelo corredor vislumbrarei a figura alegre do La Costa, ou de Andrea Carta pontificando em uma mesa-redonda, interrompendo-se para examinar as provas da capa. Ainda uma outra cidade, e meu pai estará lá também. Volto, sigo direto para a casa onde moro hoje, mas mesmo ali haverá o fantasma do Tiane a contar uma piada enquanto conserta algo. Neste vaivém no limbo do sono-vigília pouco importa o tamanho do papel desempenhado em minha vida, mas o peso da presença de qualquer fantasma, e deles todos em número cada vez maior, a não nos deixar esquecer a sentença lida no berço. Não é o viço dos jovens que nos despeja a verdade da vida, mas o brilho espectral dos fantasmas. As madrugadas tendem a estender-se cada vez mais, na busca inútil de esculpir um refúgio no mundo real. Como diz o Jô Soares, não é que eu não goste de dormir; não gosto é de ir dormir. Talvez por causa dos fantasmas goste cada vez menos e nem me dê conta.

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