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Soltando a franga na lavoura arcaica

Raduan Nassar: “Não há criação literária que se compare a uma boa criação de galinhas”. Que porrada, hein? Não, não, a frase é das &#82

Raduan Nassar: “Não há criação literária que se compare a uma boa criação de galinhas”.

Que porrada, hein? Não, não, a frase é das que late mas não morde. Como a criação literária leva a livros e a criação de galinhas, boa ou má, a galinhas e ovos, a comparação parece um pouco mais que impertinente: parece boba. Sou totalmente a favor de se falar mal da literatura, mas também sou favorável a se dizer coisa com coisa.

Se entendi direito o que esvoaça nas entrelinhas da entrevista de Nassar a Elvis Cesar Bonassa, em 1995, na Folha de São Paulo, é que ele parou de escrever porque sente a literatura, ou grande parte dela, como uma tremenda frescura ou vazio e ouve o chamado da selva, ou pelo menos o chamado das coisas práticas, concretas. Muitos escritores passaram por isso. Talvez até possa se dizer que se não passaram por isso devemos desconfiar do que escreveram. Seria interessante se Nassar, em vez de correr da briga, a tivesse levado pra dentro de um livro. Jorge Luis Borges, num conto como “As ruínas circulares”, enfrenta sua sensação de irrealidade até a última trincheira. Isso deve ter feito bem a ele, como fez a nós, leitores.

Nassar preferiu criar galinhas. Tudo bem, tem o direito. É menos romântico que traficar armas na África, como o francesinho aquele, mas e daí? A verdade simples é que o mundo não precisa de traficantes de armas, mas muito de sensatez e galinhas. Diria que de ovos também, mais alguns legumes.

Não é tão incomum escritores largarem a literatura ou serem largados por ela. Sérgio Faraco um dia disse: “Encerrei. Não tenho mais o que dizer”. Depois andou salvando uma ou outra coisinha da enchente, mas não tocou mais no assunto. Hemingway, quando se deu conta de que tinha secado ou que não era tão bom como pensava, meteu uma bala no coco. Segundo Borges, isso o salvou um pouco. Pode ser. Talvez o que me incomode no caso de Nassar sejam as queixas. Ou você acha que não são queixas as afirmações agressivas de felicidade sem literatura? São as piores, são as piores.

Autor de refogados

Raduan Nassar: “Quando você joga o alho esmagado em cima da cebola dourada, que já estava sendo refogada, só então é que sobe da panela aquele cheiro estonteante de vida. Foi isso, aliás, que me levou a desconfiar que os melhores escritores se encontram anonimamente enfiados nas cozinhas do mundo, cheirando a alho e cebola, escrevendo com uma outra linguagem. Muito da literatura não vale um dente de alho”.

Ou Elvis Cesar Bonassa, ao transcrever a entrevista, se perdeu completamente ou Raduan Nassar se enrolou numa metáfora com mais tentáculos que cabeça. Vejamos: se Cervantes não trabalhasse com palavras e silêncios, não teria escrito o Quixote nem nada. Se Cervantes se expressasse com outra linguagem, talvez tivesse feito músicas, pinturas ou esculturas. Se tivesse persistido apenas no alho e na cebola, seria autor de molhos e refogados. Isso, pra ele, talvez fizesse sentido, ou pelo menos quebraria o galho na hora da janta. Agora, se Cervantes achasse que fazer um refogado anonimamente era mais importante que dar vida a Sancho e Quixote, eu diria que o cheiro do alho subindo da panela o deixou meio zonzo. Fazer um refogado pode ser mais prazeroso ou mais importante que escrever, às vezes, ou sempre para certas pessoas. Eu mesmo tenho grande prazer cozinhando, mas quando me baixa uma história no terreiro, só sossego escrevendo. Não tem molho, branco ou ferrugem, que possa competir.

Numa entrevista à Veja, em julho de 2007, Raduan Nassar foi bem mais sensato e claro: “(…) escrever tem muito a ver com história pessoal, muito a ver com exorcizar condicionamentos, fantasmas, demônios e sabe-se lá mais o quê”. Pois é, se a gente já exorcizou nossos demônios, podemos nos dedicar ao alho e à cebola sem queixas. Mas se a gente fica insistindo que o alho e a cebola são os grandes meios de expressão dos melhores escritores, me parece que alguma coisa não se encaixa. Minha aposta é que Raduan Nassar não abandonou a literatura, não: foi a literatura que o abandonou. Pelo menos ele fala exatamente como marido corneado tentando parecer superior.

Boa parte da literatura que anda por aí não vale um dente de alho? Concordo plenamente, se era isso que a frase queria dizer.

Autor

Ernani Ssó

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