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Sonho de menino

Todos os meninos que jogam futebol pensam (e na verdade acreditam) em serem eles os grandes astros do jogo de futebol no campinho do …

Todos os meninos que jogam futebol pensam (e na verdade acreditam) em serem eles os grandes astros do jogo de futebol no campinho do seu colégio ou mesmo na rua. Usam os nomes dos craques: meninos espanhóis devem se chamar de Messi, santistas(ou torcedores de outros clubes) chamam-se de Neymar. Já fui criança e já joguei futebol (no meu tempo, jogávamos na rua mesmo, nas calçadas) e também quis ser eu um craque. Éder, para ser mais específico. Por chutar com a perna esquerda com grande potência (tal como eu imaginava que fazia), por sua irreverência e personalidade, era o ídolo da minha infância e meu alter ego.

Décadas passaram e hoje os empresários de jogadores e seus olheiros captam os meninos em idade cada vez mais tenra. Porém, não há como deixar de chamar a atenção o menino argentino Leo Coira, de 7 anos (isto mesmo, 7 anos), a mais nova contratação do Real Madrid. Não sou nem nunca fui olheiro de futebol, mas sinceramente não acredito que seja possível detectar se um menino de 7 anos vá se tornar um craque. É uma aposta e tanto. A habilidade com a bola é mais do que possível de ser detectada, mas isto não faz necessariamente de um jogador, um craque. Uma das grandes provas disto foi o jogador de futsal (e craque da mais alta qualidade) Falcão: fizeram tentativas com ele para que se tornasse um craque nos gramados, mas (com o perdão do trocadilho) não rolou. Quem já jogou ou joga futebol sabe que há grandes diferenças de tempo, dribles e passes entre um jogo de futebol de campo, um de futsal e mesmo do chamado futebol society.

Mas voltando ao menino Leo Coira, as notícias dão conta de que o Real Madrid não está pagando salários ao jovem candidato a astro, o que eu sinceramente duvido também. Podem não remunerá-lo como se faria a um jogador maior de idade, mas para que ele fique vinculado ao clube, certamente estão fazendo algum tipo de pagamento aos seus pais, seja na forma de recurso financeiro, seja na forma de bens (casa, automóvel, etc). No Brasil, a prática comum é que empresários de futebol que queiram manter uma jovem revelação sob sua tutela dêem aos seus pais a sonhada casa própria, uma ajuda de custo mensal, um carro, etc.

Acho este fato meio insensato. Porque não há como saber se o garoto realmente se tornará um craque. E me preocupa realmente se há algum cuidado com a cabeça deste menino. Porque o futebol mundial vive de endeusamentos de jogadores. Um menino de 7 anos contratado pelo Real Madrid tanto deve se sentir nas alturas, um pequeno rei, como talvez seja assim considerado pelos seus colegas de escola, de rua e de família. Ele terá algum acompanhamento psicológico pelos próximos anos, de tal forma que esta contratação não represente uma deformação em sua auto-imagem? Como lidar com esta súbita fama mundial? Ele está preparado para o assédio da imprensa? Certamente que não, mas há algum tipo de cuidado e/ou acompanhamento por parte do clube, seus pais ou UEFA, no sentido de preservar a integridade psicológica do jovem? Enveredar cedo demais pelos caminhos da fama, sem uma estrutura muito sólida por trás, pode ser corrosivo. Que o digam as celebridades que naufragaram, se entregando para as drogas ou mesmo vindo a falecer, vítimas de um assédio, de um ambiente e de um momento para o qual não estavam preparadas. Casos como este contam-se aos milhares, seja no showbizz, seja no futebol. É preciso pensar nestas crianças para que, ao contrário de reis, tornem-se escravos de sua própria fama. Está mais do que na hora que haja movimentos consistentes no sentido de estabelecer padrões morais no futebol. Pode-se continuar a fazer grandes negócios, privilegiando-se a integridade psicológica de seus atores.

Autor

Flavio Paiva

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