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Talento e bom humor

A fórmula parece simples, mas produzi-la não depende apenas de desejo, e sim de capacidade. Quando pessoas de escassa intimidade com o próprio ofício …

A fórmula parece simples, mas produzi-la não depende apenas de desejo, e sim de capacidade. Quando pessoas de escassa intimidade com o próprio ofício tentam exercê-lo com irreverência o resultado costuma ser apenas tolo. Maurício

Saraiva e Jader Rocha, os rapazes do TVCom Esportes, têm atingido enorme sucesso porque, antes de encararem a empreitada de segurar um bem humorado programa diário e ao vivo de uma hora, um latifúndio de tempo em televisão, já haviam merecido reconhecimento e respeito pela competência. Usando uma expressão do futebol, antes de tentar a firula, dominavam e passavam a bola com eficiência.

Como comentários de jornalistas sobre jornalistas tendem a ser uma ação entre amigos, cabe esclarecer que não sou amigo de nenhum deles. O Jader nem conheço pessoalmente, tampouco somos parentes, apesar de exibirmos o mesmo sobrenome. O Maurício eu encontrei algumas vezes quando era correspondente da revista Época. A última de que me recordo foi durante um plantão em Caravaggio à espera de um cumprimento de promessa de Felipão e Valmir Louruz, numa manhã gelada. Afora isso, a única proximidade é de aniversário, pois faço em 10 de junho e ele em 12. Trata-se, portanto, de comentário isento. Fecha aspas.

Ironicamente, conheci melhor o trabalho da dupla quando fui morar em São Paulo, nas transmissões de jogos pelo pay-per-view, e passei a torcer para que fossem eles os escalados. O Jader, ao contrário de tantos narradores, não irrita o telespectador com abordagens equivocadas ou observações inconvenientes, e isto já é muita coisa. O Maurício, também caso raro, é um comentarista cujas opiniões sempre coincidem com o que eu vejo em campo e penso sobre o jogo. Então, das duas uma: ou eu não entendo nada de futebol ou ele é um dos melhores comentaristas da TV. Prefiro ficar com a segunda opção.

É claro que quem se arrisca a adotar uma linha irreverente pode ficar próximo do exagero, mas o fundamental é que eles conseguem mesclar as incontáveis brincadeiras com opiniões consistentes e equilibradas. Em casos polêmicos (de verdade, não aquelas falsas polêmicas onde há um politicamente correto óbvio), o Maurício é dos poucos que desce mesmo do muro e ousa discordar de nossa por vezes uníssona mídia esportiva. E além de tudo eles são muito simpáticos. Em TV a simpatia e o carisma são fundamentais. Não admito que alguém de cara amarrada entre em minha casa.

* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. Escreve semanalmente neste site.

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Eliziario Goulart Rocha

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