A vantagem da isenção, para muitos, mera peça ficcional, é poder contemplar a história da planície, entre um chope e outro. Na forma absoluta, ela de fato não existe. Na relativa, evita-nos a visão embaçada. O maniqueísmo há muito deveria ter ido para a lata de lixo da história, único local adequado para a obrigação de dividir o mundo entre o bem e o mal. Embora de formação católica, abandonei em tempo os ditames religiosos, por definição, moralistas, inadequados e, que diabos, terei de repetir a palavra, maniqueístas.
Jamais fui filiado a partidos políticos, embora um colega de faculdade tenha tentado, de maneira bastante lisonjeira, aliás, levar-me para a ala jovem do PMDB. Seduzido pelo elogio – reservaram-me até cargo na chapa destinada à convenção –, recuei no último minuto. Sou muito grato a ele por isso. Não pelo cargo, mas pelo carinho. Hoje nem teria ido até lá, mas eu tinha 20 anos de idade e alguma carência afetiva.
Jornalistas têm de aprender desde cedo que paixões partidárias não combinam com o exercício do ofício. Criei-me profissionalmente junto com o PT. Resisti, e me orgulho disso, à idéia de escrever para milhares de leitores com o broche da estrelinha vermelha encravado no peito. Assisti a patrões preocupados com o agrado ao poder tanto quanto com colegas empenhados em afagos ao partido. Perplexei-me com ambas as investidas. Fui criado para falar a verdade, e jamais poderia fazê-lo com comprometimentos quetais. Aprendi, sobretudo, a respeitar as diferenças, sem me apaixonar por elas. Tal equilíbrio permite-me hoje avaliar as ações do governo Lula sem o venenoso passionalismo. A mídia, por razões óbvias, tem dificuldades em lidar com o assunto.
Lula fez um razoável primeiro ano de governo. Viajou mais que Fernando Henrique, incensou-se mais que FH ousaria sonhar. Deslumbrou-se. Mas fez avançar reformas importantes, embora capengas e por vezes mal focadas, como ao eleger o funcionalismo o vilão da previdenciária, ou ao se preocupar com a divisão dos delicados com governadores e prefeitos e não com a redução dos sufocantes tributos, na tributária. Mas governar na democracia é isso. Errar aqui, acertar ali, negociar acolá. Somente ditadores de variados matizes – entre os quais, lamento, inclui-se Fidel Castro –, podem se dar ao luxo de fazer as coisas acontecerem de acordo com sua vontade. Lula foi eleito de forma legítima e com ampla maioria, o que lhe confere credibilidade para governar, errar de vez em quando, e até para acertar.
Só podia parar de se aliar a oligarcas, de exagerar nos números otimistas e de fumar escondido.
Um ótimo Natal e um 2004 do tamanho de seus sonhos.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É editor da revista Forbes e escreve semanalmente neste site.

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