Colunas

Temperos e alucinógenos

Você sabia? Descobriram que a sálvia é alucinógena. Minha avó sempre fazia galinha à caçarola e a sálvia era o tempero principal. Caraca, fui …

Você sabia? Descobriram que a sálvia é alucinógena. Minha avó sempre fazia galinha à caçarola e a sálvia era o tempero principal. Caraca, fui criado por uma traficante e corruptora de menores.

Mas imagina se a moda pega. Adeus, cebolinha. Adeus, mangerona. E o orégano então? O enquadramento do orégano levaria a uma encrenca de proporções mundiais. Milhões de motoboys lambendo as pizzas antes de entregar e saindo doidões por aí, se matando contra postes, muros e carros. Peraí. Acho que já andam lambendo pizza (atenção, revisor) e que o orégano é muito pior que a sálvia.

Agora estou à espera da revelação definitiva: que a água e o ar também são alucinógenos. Porque, cá pra nós, é duro achar que tudo isso que vemos é real.

A lógica da fumaça

Tenho visto fumantes reclamando da caça aos fumantes. Como não existe argumento razoável para defender o fumo, eles agitam o pendão da liberdade: cada um tem o sagrado direito de ser fedorento, de se envenenar com o que quer e de enriquecer mais ainda a multinacional de sua escolha. Tudo bem. Mas o que se discute é que direito tem o fumante de envenenar os que não fumam sem nem perguntar se topam ou não. Pelo visto, o cigarro não afeta apenas o pulmão, mas a capacidade de raciocínio.

Efeito colateral

Morrem sete fumantes passivos por dia, em média, no Brasil. Prefiro bala perdida. É mais rápido e mais barato.

Professor de português

Li na Uol, na seção Dicas de Português, um texto de Dílson Catarino sobre uso de cedilha. Começa dizendo que os jovens temem a ortografia pela quantidade de regras. Até aí, tudo bem. Parei foi na segunda frase: “É-lhes difícil memorizar a todas”. É-lhes? Meus sais, rápido, meus sais. Como alguém capaz de escrever uma frase ridícula dessas pode se arrogar o direito de ensinar os jovens a “escrever corretamente”? Escrever corretamente tem pouco a ver com não errar cedilhas ou dois esses. Cedilhas e dois esses qualquer programa de informática resolve. Escrever corretamente passa por uma matéria chamada bom senso, matéria pouco vista pelos gramáticos e professores de português porque não depende de decoreba.

É-lhes

O pior é que o sujeito escreve uma imoralidade dessas, relê em voz alta e fica com o famoso sorrisinho de gato que comeu o canário. Pensa que é um estilista, o pobre animal.

Aspas para Mário Goulart

“A crase não foi feita pra humilhar ninguém, dizia o Ferreira Gullar, mas diz isso pros revisores.”

Hollywood e eu

Tem um cara saltando com meio mundo explodindo atrás dele? Eu mudo de canal. Tem alguém pendurado no vazio, apenas pelas unhas, até o último segundo? Eu mudo de canal. Tem perseguição de carro? Eu mudo de canal. Tem alguém indo sozinho pegar o carro no estacionamento subterrâneo, à noite, num silêncio de doer? Eu mudo de canal.

Então, pra rimar, penso no Stendhal. Ele dizia que não gostava de fascinar o leitor por meios artificiais. No Vermelho e o negro, ele descreve o duelo de Julien Sorel numa frase. Isso é um luxo, não?

Agora, como alguém consegue acreditar que o uso dos mesmos truques baratos, década após década, pode fascinar alguém?

Velhos polêmicos

É dura a vida de um velho polêmico. Com o tempo, ele se torna folclore. Folclore pode ser divertido ou não, mas quem leva a sério? Depois que morre a mãe do velho polemista, apenas ele se leva a sério. Mais um fim melancólico, como tantos outros.

Dimenores

Corte saudita julga pedido de divórcio de menina de 8 anos. Se fosse aqui, dava capa da Playboy, não dava? Em São Paulo, menino de 11 anos foi pego duas vezes dirigindo carro roubado em alta velocidade. Vem fazendo esse tipo de coisa desde os 9. Justiça espera ele tirar a carteira para cassá-la. Na Austrália, menino de 7 anos invadiu zoo e matou, sorrindo, pelo menos 13 animais, a pedrada, ou jogando-os para um crocodilo. Na delegacia, se manteve calado. Esse promete.

Sinais dos tempos? Não seja bobo.

Conto de ficção científica

No planeta destruído pelos alienígenas, a única coisa que restou foi uma placa, num poste: Consertam-se gaitas.

Autor

Ernani Ssó

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.