Depois do gerundismo (“Vou estar transferindo a ligação”, “Vamos estar lhe enviando o documento”), chega uma nova moda, ainda não batizada (ao menos que eu saiba). Os veículos de comunicação falam agora em teria e seria. “Fulano seria o assassino da comerciante.”; “Beltrano teria desviado 32 milhões de dólares.”
Para nós (leitores, telespectadores) fica a sensação de uma informação insegura. Teria roubado? Seria o assassino? Dá a nítida sensação de que o veículo não tem segurança sobre o que está dizendo. E a informação acaba por perder (um pouco, ao menos) sua credibilidade. Ou matou, ou não matou. Ou roubou, ou não roubou. Se ainda não há elementos suficientes para se fazer tal afirmação, melhor então não fazer. Porque depois de lançado o nome de alguém na mídia como um assassino, por exemplo, é bem difícil desfazer o estrago. E se esta pessoa não for o assassino ou ladrão?
Em uma conversa recente com meu amigo (jornalista) Eugênio Esber, comentei sobre o assunto e ouvi ponderações importantes, como a de que houve o enxugamento das redações e de que as verbas foram reduzidas. Assim, é preciso que uma equipe menor e com menos recursos faça o mesmo que antes. Complicado. E explica uma parte do fenômeno.
O que não entendo, porém, é o uso excessivo do seria e teria. Se falarmos de um crime onde ainda não há julgamento, é normal que se use uma frase não afirmativa. Porém, para outras situações (como suspeita de desvio de recursos, por exemplo), fica complicado.
Resolvi tocar neste assunto porque vivemos em uma sociedade muitíssimo midiática. Assim, estar na mídia (para o mal ou para o bem) pode significar a ruína ou o sucesso das pessoas. Penso que, portanto, deve-se ter muito critério ao levantar suspeita a respeito de alguém. Porém, o que estou vendo (e em todos os veículos) é o uso em larguíssima escala deste expediente.
Onde foram parar nossas certezas? Além do “estarei enviando”, que coloca a ação num limbo, sem podermos ter certeza de quando será enviada nem recebida, temos agora com o “teria” e com o “seria” uma espécie de gerundismo da afirmação. Será receio de as pessoas serem mais afirmativas?
Lembro que o mundo em que vivemos hoje está absolutamente pulverizado. Famílias foram desfeitas, certezas questionadas, ideologias abandonadas (Cazuza já cantava “Ideologia/Eu quero uma pra viver”, mais de 10 anos atrás). Assim, como já mencionei aqui neste espaço, as pessoas partem em busca de certezas.
A volta do nazismo, as ortodoxias, os fundamentalismos são, hoje, respostas a esta sociedade tão confusa. Respostas pavorosas, é verdade. Tudo de que não precisamos. Mas por que estas linhas de pensamento estão atraindo cada vez mais adeptos? Porque a própria sociedade está demandando certezas.
E, justamente agora, os veículos acabam seguindo no sentido contrário, ou seja, aumentando ainda mais as incertezas. Poxa, gente, vamos ser um pouco mais criteriosos e afirmativos. Senão, pode ocorrer de eu estar deixando de ler o jornal. Ou o programa de TV anunciar: “A população teria deixado de assistir TV”.

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