Colunas

Todas as notícias que merecem ser vividas

The New York Times cunhou o slogan destinado a tornar-se síntese de um veículo de comunicação criterioso. “Todas as notícias que merecem ser publicadas”, …

The New York Times cunhou o slogan destinado a tornar-se síntese de um veículo de comunicação criterioso. “Todas as notícias que merecem ser publicadas”, reza o bordão, criado quando a vida era mais lenta e o cidadão médio ansiava pelas escassas informações acerca do mundo. Hoje, quando temos tempo de menos e informação demais, quem sabe seja hora de adaptar a frase: “Todas as notícias que merecem ser vividas” soa mais adequado. De um atentado terrorista em Madri à queda da Bolsa de Valores de Taiwan, tudo nos envolve num mundo de emoções globalizadas. Mas jamais nos afetará tanto quanto a morte de alguém a quem amamos, o nascimento dos filhos, mimos e rejeições da infância, as contas a pagar as contas a pagar as contas a pagar, a vitória do time de futebol, a derrota do time de futebol, o romance imaginário com a vizinha aos dez anos de idade, ainda que ela tivesse dezoito, o primeiro emprego, a aprovação no vestibular, a doença de um amigo, a própria doença, a velhice dos que amamos, depois a nossa, e nossa morte, mas aí já é dor dos outros.

Informação é vital nesta era competitiva e com miríades de aspectos a afetar o cotidiano, mas talvez o tempo traga mais que o branco dos cabelos. Quem sabe traga a consciência da desimportante importância do noticiário, da Al Qaeda, do Waldomiro e da variação do dólar, e da importante desimportância do medo do escuro, dos ruídos noturnos na velha casa de madeira, das mamadeiras preparadas com os olhos fechados de sono, dos passos apressados das crianças a nos abrir a porta ao final do dia, do chope com os amigos, da adaptação a eventuais limitações físicas sem abrir mão da força mental.

Falávamos sobre isso outro dia, Augusto Nunes e eu, em conversa provocada por mim a respeito de um artigo dele. Augusto narra as relações com os retratos de família em seu quarto na casa dos pais, em Taquaritinga, interior de São Paulo, durante o Ano Novo. Pela primeira vez, a mãe, Biloca, e suas célebres goiabadas, já não estava lá. Mas havia os retratos, com os quais ele dialoga em texto memorável.

Pensamos sobre o assunto no Santo Colomba, bar elegante nos Jardins, no qual se pode beber e fumar à vontade sem barulhos excessivos ou a possibilidade de invasão de/em diálogos alheios. Jornalistas passam a vida imaginando que seus escritos serão capazes de melhorar o mundo. Um dia descobrem que o mundo que realmente importa costuma ser ignorado pelo noticiário. Alguns “como isto influencia sua vida”, “saiba como a medida afeta seu bolso” ou o já clássico viés do “sonho interrompido” em reportagens sobre crimes e acidentes fatais acenam com a redenção. Não basta. Como na bela canção de Ed Motta, vamos dançar enquanto é tempo, nos aplicar a viver. E a falar de vida vivida. O que, para um escritor, é quase a mesma coisa.

Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos. É Diretor de Redação da revista Forbes Brasil e escreve semanalmente neste site.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.