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Tosse, a bandida barulhenta

Estou preocupada. Essa história de globalização está indo longe demais. Faz pouco, a gente só se preocupava com duas coisas da Islândia: a Bjorg …

Estou preocupada. Essa história de globalização está indo longe demais. Faz pouco, a gente só se preocupava com duas coisas da Islândia: a Bjorg pedir asilo no Brasil e os vulcões de nome impronunciáveis deles voltarem a prejudicar as viagens pela Europa. Agora, eis que Porto Alegre não saiu do noticiário porque daqui ninguém saia e aqui ninguém chegava por causa do tal vulcão chileno Puyehu. Aliás, vulcão adora ter nome complicado. Até mesmo por estas partes das Américas.

Além da chance de se filosofar à vontade sobre a inquebrantável força e arrogância da natureza, tenho a oportunidade de também me irritar com a possível piora da minha gripe, que há uma semana não me deixa  dormir, por causa das tais cinzas que estão caindo do céu sobre nossas cabeças. Não caíram ainda? Questão de tempo!

Já planejo comprar as máscaras que japoneses e chineses usam quase como as inglesas mudernas usam fascinators, pois a batelada de remédios que estou tomando tem me ajudado zero. Estou quase  voltando aos chás e ao limão com açúcar pra passar a irritação da garganta, porque xarope com gosto de pêssego (um pavor!), granulado com gosto de nhaca, xarope com gosto de vômito,  nada disso resolve.

A rouquidão deixou aquela fase de ser glamurosa e passou a ser fonte de ânsia, tanto pra quem me ouve quanto pra eu que tenho de me ouvir assim, com voz de ralador. E o pior, mas o pior de tudo, que nem um médico me explica a contento, é a razão de, mesmo aplicando um spray pra amenizar a dor e enfiando soro fisiológico para limpar o nariz de hora em hora, é quando se deita a cabeça no travesseiro que tudo fica mais infernal que o próprio inferno.

Já tentei todas as maneiras de passar a perna nesta situação. Empurro a hora de ir pra cama o mais que posso, tusso tudo o que consigo, vou pro banho quente quase na hora de deitar e aproveito a sauna pra limpar também as vias aéreas superiores. Fico lendo, bem sentada, e disfarçando, apago a luz de cabeceira e escorrego devagarinho no escuro pra baixo das cobertas. Nos primeiros minutos, embalo o sono divino até que aquilo começa a roncar no peito, primeiro como um desconforto, depois ameaçador, até que explode numa tosse rascante, que se assemelha a uma cimitarra por dentro do pescoço.

E não adianta virar de um lado pro outro, trocar o lado do travesseiro, ajeitar o lençol pra afastar o cobertor, deixar uma fresta pra entrar ar fresco. Tampouco meu velho truque de empapar um pano com álcool, como minha mãe fazia quando eu era guria, e enrolar no pescoço, nada resolve. A maldita tosse é mais forte. E quando ela não vem, não durmo esperando que se manifeste por aquela sensação que tem, ainda, a impressão de que há coelhos prontos pra saltar pela boca.

Agora entendi aquele conto do Julio Cortazar, dos coelhos que brotavam boca a fora da personagem. Ele deve ter passado por uma gripe como essa. Um fato tão medonhamente importante na vida que simplesmente tomou conta da minha vida e desta croniqueta de mal dormida. A tal ponto que nem consigo falar como gostaria na safadeza do Battisti solto, no troca-troca que a Dilma inaugurou nos ministérios nem na canalhice do Palófi se dizendo bom brasileiro. Tudo por causa da tosse e da gripe. Malditas sejam!

Autor

Maristela Bairros

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