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Travessão: Um Drama Ortográfico na Era da IA

Nos últimos tempos, uma questão ortográfica tem me tirado o sono – e talvez até a inspiração. Não, não é a crase (essa já virou inimiga íntima e merece um tratado à parte). É o travessão, meu velho amigo, agora sob adoção implacável da inteligência artificial.

Confesso sempre tive um caso de amor com o travessão. Aquela pausa dramática, o ar de confidente que ele confere ao aposto – aquela explicação que entra na frase como quem não quer nada, mas que, no fundo, é o tempero da conversa. Em meus livros e crônicas, ele é meu cúmplice, a ferramenta perfeita para aquela ênfase extra, um sopro de voz que a vírgula, coitada, só sussurra. Ele, o travessão, é quase uma assinatura, o toque pessoal que eleva a narrativa.

Mas eis que o mundo deu um giro high-tech. De repente, a IA – essa produtora incansável de textos perfeitos, rápidos e, sejamos honestos, às vezes um tanto sem alma – começou a usar o travessão. E não é que ela o faz com uma frequência alarmante? Agora, meu querido travessão, que eu usava como marca registrada de um pensamento mais elaborado, virou um indício de… algoritmos. Um sinal de que “este texto pode ter sido gerado por uma máquina”. A percepção da escrita genuína parece se esvair.

Pensem no drama: meu aposto, antes um adorno estético, agora corre o risco de ser confundido com um output robótico. É como se um sapato exclusivo, e feito à mão, virasse parte do uniforme padrão de uma linha de montagem. A vírgula, antes preterida, surge como a salvadora da pátria, a guardiã da originalidade humana. Fica a dúvida: devo aposentar meu travessão? Deixá-lo mofando na gaveta da memória ortográfica, em favor de uma pontuação mais… “orgânica”, para evitar a temida dissonância interpretativa?

A verdade é que a voz autêntica, seja ela pontuada por vírgulas ou travessões, sempre encontra seu caminho. O estilo de um escritor – a escolha das palavras, o ritmo das frases, a própria alma que se derrama no texto – é muito mais do que a soma de seus sinais gráficos. Talvez o travessão, em vez de ser um indício de IA, possa se tornar um símbolo de resistência, um aceno à individualidade em um mar de uniformidade digital. Uma declaração de que, sim, ainda existem humanos por trás do teclado, e eles ousam pontuar com paixão e propósito.

Então, o que faço com meu travessão? Bem, por enquanto, vou deixá-lo ali, à espreita, pronto para intervir com sua dose de drama e ênfase. Porque, no fim das contas, a comunicação é uma espécie de dança entre “o que se diz e o como se diz”. E nessa dança, o travessão ainda tem muito a oferecer. E se for para ser confundido com um robô, que seja um robô com bom gosto literário.

Autor

Beto Carvalho

Beto Carvalho é consultor, mentor e conselheiro Empresarial, escritor e palestrante. Executivo com mais de 25 anos de experiência diretiva em empresas nacionais e internacionais, foi recentemente diretor-executivo de Marketing do Grêmio, tendo sido eleito em três oportunidades, o melhor executivo de Marketing de Clubes do futebol brasileiro. Escritor, Beto Carvalho é autor dos livros A Azeitona da Empada (2007), A Cereja do Bolo (2009), Você é o Cara (2011), Diferencie-se (2023) e O Bolo do Sim (2025).
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