A globalização nos gerou um fenômeno no mínimo curioso: entro num site de notícias, encontro uma manchete; entro noutro, a mesma notícia. Vou para uma emissora de TV, lá está ela de novo. Mudo de canal, novamente ela. Mudo de novo e de novo e de novo. Ei-la.
Até compreendo que há notícias que são de fato relevantes e merecem aparecer em todos os sites, rádios, TVs e jornais do mundo. Um exemplo é uma grande guerra, a queda das torres gêmeas. Até aí tudo bem. O problema é que praticamente todas as notícias estão sendo tratadas desta forma. O irrelevante tornando-se relevante por conta da globalização. São muito poucas as agências de notícias no mundo que distribuem o material. Acabam pautando as redações. Os veículos, de um modo geral, não querem ter um grande número de correspondentes, por conta do custo que isto representa. Mas aí, tome notícia igual.
Este é o primeiro caminho para a pasteurização da produção intelectual. Lendo, vendo e ouvindo as mesmas coisas, há uma natural tendência de gerarmos reflexões e debates semelhantes.
Além deste resultado negativo e importante, ficar mudando de canal, de site e de rádio e ouvir sempre as mesmas coisas enche o saco. Que falta de criatividade, hein? Será que não tem mesmo nada mais importante para noticiar? Às vezes o interessante não está no exterior, mas no meu vizinho.
Vemos tudo de longe quando o assunto é globalização. Está tudo longe, quase que impessoal, inodoro. Quando é o meu vizinho, eu o conheço. Sei de alguns de seus hábitos, talvez até alguns de seus dramas pessoais. As cores da notícia são acentuadas. É isto: a globalização empalideceu a notícia.
Mas que ao fim e ao cabo, não restemos nós pálidos de idéias, muito menos de ideais, menos ainda de imaginação. Assim como a rosa de Hiroshima nasceu ali, no nada onde havia sido detonada a bomba atômica, o ser humano tem esta capacidade infinita da reinvenção, do diferente, do novo. A globalização tem que gerar um inconsciente coletivo de idéias. Não pode ser o diazepam da criatividade.

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