Nosso mundo está ficando bem, mas bem pequenininho, mesmo.
Com exceção de algumas aldeias indígenas ainda não tornadas públicas (mais porque os habitantes não querem, já que o satélite pode tudo) e raríssimas exceções entre intelectuais, em especial jornalistas, que torcem o nariz para celular, a tal da aldeia global está cada vez mais interligada.
Me divirto vendo papeleiros conversando animadamente, ao telefone, empurrando as carrocinhas em meio ao trânsito assim como me encanto em ver gente de mais de 70 anos contatando amigos por MSN.
Chiem os saudosistas. Brindem os que ainda conseguem se entusiasmar com o que já se torna banal.
Pena que toda esta versatilidade, esse boom tecnológico não seja acompanhado de uma semelhante onda de integração humana. Nos afastamos. E não vamos culpar as maravilhas da computação, da nano isso e aquilo, dos Steve Jobs e dos Bill Gates da vida.
Exagero eu? Vejamos um teste rápido: pare agora mesmo, e pense, em quantas pessoas você amou de paixão, foram alvo de declarações de amizade eterna, aquela tia especial que fazia com que você risse sem parar e lhe enchia de puxões na bochecha com um tipo inesquecível de amor. Ou então aquele professor que foi o único que acreditou que você era capaz de se sair bem na prova final e não deixar mãe e pai de beiço caído de decepção porque teriam de explicar aos vizinhos que você “rodou”. Há quanto tempo você não procura estas pessoas? Ou pensa nelas?
Tanta coisa vai se acumulando em nossa vida, com valor real e sem moeda de troca, mas só notamos sua importância quando a curva da longevidade começa a descer em direção ao marco zero.
Tudo isso conto porque, nesta quinta-feira, deixei o medo da violência nas ruas do Centro à noite e fui até a Casa de Cultura Mario Quintana para a comemoração de seus 18 anos. E, meio xucra depois de ficar muito tempo sem sair e contatar gentes, custei a me acomodar, a enxergar rostos queridos em meio aos desconhecidos.
Enquanto tentava me recolocar no grupo, fui relembrando a primeira vez em que lá entrei, em meio às obras, ciceroneada pelos arquitetos que formatavam o lugar. Pisando em tábuas soltas que, depois, seriam o piso do teatro Bruno Kiefer, me senti perdida e , ao mesmo tempo, deliciosamente assombrada com o tamanho da iniciativa e da beleza do que estava por vir a partir da beleza do que já era: o edifício do Majestic.
Ontem, vendo os tapumes que pretensamente envolvem obras de reformas, e vendo o esforço dos integrantes da Associação de Amigos da Casa de Cultura, que tocam o barco tirando água de balde para que ele não afunde, fiquei triste. Não acredito que a iniciativa privada, uma Vale, uma Braskem, uma Gerdau, uma Aracruz, não enxerguem a grandeza do gesto e o retorno em imagem e, claro, dividendos, caso invistam uma parcela mínima de seus lucros na reforma daquela casa linda e tão importante para nossa memória e nossa cultura.
Do governo, não espero nada. Vi de perto este filme do cobertor curto da grana e da falta de vontade política para resolver situações do patinho feio que é a cultura. Hoje, minha esperança está nos capitalistas que estão crescendo tanto e tão bem, felizmente, com este governo que um dia se apresentou como socialista.
Estamos, agora, prontos para exibir nossos iPhones comprados
