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Tutankamon vai voltar!

@yoanisanchez: “Hablar en #cuba de la larga data del regimen de #Egipto es como mencionar la soga en casa del ahorcado” Esta tuitada de …

@yoanisanchez: “Hablar en #cuba de la larga data del regimen de #Egipto es como mencionar la soga en casa del ahorcado”

Esta tuitada de Yoani, que muitos meninos da gauche caviar juram que é uma farsa montada pelos Estados Unidos para falar mal de Cuba, me levou a lembrar do quanto eu sabia e sei sobre o Egito que, de repente, não mais que de repente, passou a ser o prato do dia de todas as mídias.

Viajei, então, para meis sete, oito, nove anos, por aí, quando, a bordo do balcão da sapataria de meu pai, na praça da Bandeira na vila do IAPI, ouvi, pela primeira vez, falar num lugar chamado Suez. Soube dele porque meu pai conversou muito com um rapaz que era dali, da vila, e que havia recém chegado de viagem e estava sendo festejado pelos vizinhos porque, afinal, tinha tido a coragem de “servir” em Suez.

Não lembro agora se fiquei sabendo o que era Suez, das forças de paz que mandavam gente de vários lugares do mundo para lá, ou o que, na realidade, representava a aventura daquele rapaz. Só sei que ele me trouxe, de presente, um lencinho lilás, pequeno mas grande o suficiente para cobrir minha cabeça e amarrar sob o queixo, como era moda e, orgulhosa, ir ao grupo Escolar Gonçalves Dias, me exibir com aquele pedacinho de pano que tinha fios dourados no meio.

Esqueci o nome do moço. O lenço se desmanchou anos depois. A sapataria do seo Waldemar na Praça da Bandeira fui expulsa dali por um destes feitores que ocupam o poder e depois graças a Deus a gente apaga da memória também. E também se foi minha absoluta paixão pela “história do Egito Antigo”, que cultivei durante anos, encantada com as histórias de múmias, pirâmides, maldições e mortes de quem se atrevia a entrar no que livros e revistas chamavam de “última morada” dos reis e, claro, com a Esfinge sem nariz.

De toda a geléia geral que fui fazendo com aquelas pinturas estranhas com rosto em perfil e corpo de frente, a pedra de Roseta, as fotos das folhinhas exibindo camelos enfileirados na areia, montados por pessoas cobertas de roupas negras contra o fundo ensolarado e, lá longe, uma pirâmide, de tudo isso foi ficando quase nada.

Uma pitada de Nasser, a imagem da morte de Sadat e alguma coisa da guerra com Israel e mais um que outro livros contando segredos da vida do alto e do médio Egito, essas coisas, pouco, portanto, restou da velha paixão de menina.

A tal ponto descurti a terra de Nefertiti que nem mesmo todo o acervo egípcio do Louvre me comoveu. Au contraire, fiquei entediada por aquelas salas a meia luz, cheias de sarcófagos e objetos fora de contexto que ali não voltei nas visitas posteriores.

E,sinceramente, acho aquele obelisco de Luxor fincado no meio da Place de la Concorde uma coisa alienígena na paisagem parisiense.

Assim é que fico meio besta olhando toda esta histeria dos meios jornalísticos em torno do que aconteceu no Cairo agora, sem a menor ilusão sobre o que pode um “movimento popular” na mudança de um rumo político, com náusea quando vejo um destes participantes de programa de variedades de TV dizendo, bestamente,”é lindo isso”, dez vezes seguidas, ao olhar para a praça cheia (de homens, raras mulheres) e jurando que é “a revolução do povo”.

O que é lindo? Trocar um ditador por uma junta militar que pode querer ficar e que não vai hesitar em matar para continuar mandando? Ou deixar ascender radicais que passam a espada no nariz e nas orelhas de meninas, que apedrejam mulheres enterradas até os ombros, que oprimem sem culpa e aprendem, desde meninos, a matar em nome de Alá? “Grande vitória do povo egípcio”, acabo de ouvir da boca de um jornalista que vive em Israel. Duvido.

Povo nao tem vitória. Povo é uma massa que poderosos de qualquer ideologia, nível intelectual ou origem, manobram. Sempre foi assim e sempre será. Não acredito nesta “vitória coletiva”: na China de Mao, o povo virou delator do vizinho, teve de se vestir com uniforme, e até hoje é peça de engrenagem de máquina de fazer dinheiro para quem tem o poder; na Rússia, o povo ocupou mansões e terminou morando nos Gulags a cada desobediência real ou imaginária dos ídolos do PT; em Cuba, o povo trocou um ditador que vestia terno de linho branco por um ditador com uniforme militar que prendeu, expulsou e matou quem discordava da sua cartilha – e continua fazendo isso. Exemplos não faltam, incluindo o Irã que deve ter exportado boa parte dos “líderes” do movimento do Cairo.

Enfim. Prefiro lembrar dos meus tempos de paixão pelo velho Egito. Porque, do jeito que está, só consigo lembrar daquelas frases que se encontram em postes, paredes,e até plaquinhas de madeira nas estradas e que ameaça: “Jesus vai voltar. Prepare-se!”. Acho que, no caso do Egito, Tutankámon vai voltar. E vai ser lindo, lindo, como dizem alguns colegas emocionados.

Autor

Maristela Bairros

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