o0o Acaso bonzinho: peguei uma semana de sol. É pouco? Desembarquei e fecharam o aeroporto. Foi reaberto três dias antes da volta e nem precisei entrar em fila.
o0o Entreouvido perto da Notre-Dame: “Naquela lojinha tem uma vendedora que fala português. Ela sabe dizer bom dia, boa tarde, boa noite, vô levá”.
o0o Parisienses? Japoneses, chineses, vietnamitas, coreanos, gregos, iranianos, italianos, argentinos, marroquinos, argelinos, hindus, árabes, brasileiros, espanhóis e sei lá mais o quê. Tem até franceses. E todo mundo casa com todo mundo. Bonito de se ver.
o0o As francesas mais bonitas não são azuis, como no conto do Roberto Drummond. São amarelas, quer dizer, orientais. Mas é bom não esquecer algumas negras lindas.
o0o Meu francês ginasiano: “Vous Jane, moi Tarzan”. Mas todo mundo fala inglês e arranha espanhol, italiano e inclusive brasileiro.
o0o Só dois franceses fedorentos. Um senhor ao meu lado no metrô, mas perdia pra mim, depois de um dia batendo perna. Agora, o chinês do táxi pro aeroporto era imbatível.
o0o Perambulando de noite. Numa ruazinha estreita e escura, uma fachada verde e amarela brilhando: “Butiquim brasileiro”. Apressei o passo.
o0o Não tem bar que não ofereça caipirinha. Como não gosto de drinques exóticos, deixei pra lá.
o0o Cena na padaria. Mulher sozinha numa mesa, depois de tomar um café, com uma baguete na mão, parecendo meio adormecida. Então ela parte a baguete ao meio e a cheira profundamente.
o0o Azar: Museu Picasso fechado. Cada vez gosto menos do homem e mais da arte dele. Alguns quadros famosos, lado a lado com os do Picasso, parecem pintados por alguma tia nossa com pendões artísticos de fim de semana.
o0o Gosto muito, mas muito da literatura grega e dos vinhos de Creta. Agora, todas aquelas estátuas perfeitas? Parecem feitas em série. São um tédio, maior ainda se vistas depois das egípcias. Sou suspeito pra falar. Em matéria de arte, em primeiro lugar, sou mais a rupestre, depois algumas outras estilizações. Pra mim o realismo grego provocou um desvio de séculos.
o0o O que mais me impressiona nos monumentos é o ego do cara que pagou a conta. Nesse ponto os egípcios são imbatíveis. Se a civilização deles tivesse durado mais uns tempos, ia faltar pedra.
o0o Quai des Orfèvre, Palácio da Justiça. Já estive ali muitas vezes com o comissário Maigret. Penso ter visto a sombra dele numa janela.
o0o As águas limpas do Sena. Saudade de um Guaíba que não conheci.
o0o Hotel na rue Mouffetard, logo abaixo da Place de la Contrescarpe, onde ficam os cafés preferidos do Henry Miller e Hemingway. Todas as nacionalidades lado a lado. Restaurantes, cafés, bares, botequinhos, lojas, mercados, fruteiras, padarias — tudo tão junto que se tem a impressão de que alguns estão dentro dos outros. Movimento permanente: hordas de adolescentes, mas não só adolescentes, na rua, comendo, bebendo, conversando. Não vi nenhuma briga, nem ninguém de porre, mesmo que a venda de álcool (até as dez da noite) seja permitida a maiores de dezesseis anos. Agora, minha nossa, como essa gente fuma.
o0o Na adolescência, eu queria ser pintor. Se tivesse visto as águas do Monet teria quebrado o pincel muito antes.
o0o A gente vê aqueles prédios sólidos, bonitos — não tem como não sentir na carne a frase famosa de que nos trópicos as cidades ficam decadentes antes de envelhecer.
o0o Olhei atentamente, mas não consegui identificar um sorbonícola, espécie estudada por Rabelais.
o0o Não há como não pensar: no Brasil, quantas horas o pessoal levaria para roubar todas aquelas cadeiras soltas nos parques?
o0o Pela meia-noite, a Mouffetard fervendo, num pub se ouvia “mamãe, eu quero/ mamãe, eu quero mamar”. Passando na rua, uma moça dá uma paradinha, ensaia um rebolado, ri e segue em frente.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial