Um case de aumento da sensação de segurança

Por Elis Radmann

É muito gratificante fechar o ano comparando dados de pesquisas que mostram evolução de cenário social. Há muitos anos, o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião realiza pesquisas de vitimização, que é um importante instrumento para mapear a taxa de subnotificação de diferentes tipos de ocorrências passíveis de registro policial. Esse tipo de pesquisa permite conhecer o perfil das vítimas, as circunstâncias em que ocorreram o crime, a propensão das vítimas em denunciar ou não a ocorrência, definir grupos de risco e identificar a percepção da população em relação à atuação das forças policiais.

Em 2017 o IPO realizou uma pesquisa de vitimização para subsidiar as políticas públicas do Pacto Pelotas pela Paz, que é um plano de segurança pública liderado pela Prefeitura Municipal de Pelotas nos governos da Prefeita Paula Mascarenhas. O Pacto é constituído por um conjunto de estratégias que buscam a redução da violência e promoção de uma cultura de paz, levando em consideração cinco pilares: prevenção social, policiamento e justiça, fiscalização administrativa, urbanismo e tecnologia.

A pesquisa de 2017 foi replicada em 2024 e identificou que houve uma inversão no sentimento da população pelotense, identificando a ampliação da sensação de segurança. Em 2017, no ano da constituição do Programa Pacto pela Paz, 60,2% dos pelotenses consideravam Pelotas uma cidade bastante violenta. Atualmente, apenas 11,8% têm essa percepção. O contrário também aconteceu, na pesquisa de vitimização de 2017, 10,1% da população considerava a cidade pouco violenta e neste final de ano, este indicador está em 55%. Significa dizer que, em 2017, 6 de cada 10 pelotenses classificavam a cidade como muito violenta e em 2024, quase 6 de cada 10 indicam que a cidade é pouco violenta. O indicador de uma cidade violenta, mas não muito, se manteve na casa dos 23% em ambas as pesquisas.

O índice de sensação de segurança permaneceu equânime em todos os bairros da cidade e segmentos sociais, mostrando que quanto maior a idade do entrevistado, maior a percepção de segurança. Importante registar que a sensação de segurança se manteve no mesmo patamar entre as diferentes autodeclarações de raça.

É notória a ampliação da consciência da população, especialmente em relação a temas como discriminação e importunação sexual, demonstrando que as pessoas estão menos passivas a esses tipos de crimes. Em 2017, 33,9% dos pelotenses que afirmavam já ter sofrido alguma discriminação, indicavam que os motivadores estavam associados à sua raça (29,0%) e à sua orientação sexual (4,9%). Em 2024 são 41,4% que declaram que sofreram discriminação, por sua cor/raça (35,6%) ou por sua orientação sexual (5,8%) e se mostram mais cientes de seus direitos.

O Pacto pela Paz se mostrou uma política pública importante para combater a criminalidade e trazer maior sensação de segurança. Entretanto, a pesquisa indica a ampliação de crimes virtuais como golpes dados pelo telefone celular e fraudes pela internet. Além disso, há maiores índices de subnotificação destes casos, pois a maioria dos entrevistados não realiza ocorrência policial por acreditarem que não trará nenhum resultado. Porém, a indicação da segurança pública é ao contrário, quanto mais registros policiais, maior a capacidade de investigação e de punição dos criminosos.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]

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