Sebastián Borensztein escreveu e dirigiu esse filme sobre “um argentino e um chinês unidos por uma vaca que caiu do céu”. Excelente. Não tem efeitos especiais, não tem nada nem remotamente parecido com Ben Stiller, não tem ação espasmódica pra disfarçar a falta do que dizer, não tem mulheres deslumbrantes mostrando a bunda pra acordar os marmanjos na plateia, não tem ninguém ninja e não precisa de sentimentalismo pra comover. Minha nossa, o que um pouco de talento pode fazer!
Amigos de escritores
Quando mostrei meus primeiros originais a amigos, meu tormento era: tomara que gostem. Depois, aprendendo na porrada a ter alguma noção do que eu fazia, meu tormento mudou. Hoje tudo o que eu desejo é que não me leiam com complacência.
Os três mosqueteiros
Não lembro quantas vezes reli Os três mosqueteiros. Mas sei que o prazer aumenta a cada releitura. Está aí um desses milagres literários, onde tudo bate certo, no tempo certo: o humor, a aventura, o drama. Sem falar que o texto é de uma fluência assombrosa. Tudo o mais que o Alexandre Dumas escreveu não vale um capítulo desse romance.
Sempre me divirto pensando que se tornou um livro pra crianças. Os heróis são uns arruaceiros, gigolôs, bêbados e cínicos. Valentes? Sim, claro, mas exibem a valentia como exibem as roupas novas que conseguiram comprar tapeando alguém. Enfim, esses heróis, com seus motivos não muito santos, dão o molho de humanidade necessária pra tornar a aventura crível.
Por que o cinema, nas inúmeras adaptações, tem de meter a colher numa história perfeita? Que mania essa de alterar justo a essência da coisa, o toque do gênio? Por que rebaixar, simplificar, vulgarizar, esterilizar? Se querem contar as drogas de sempre, disfarçadas com o brilho de purpurina da técnica, deixem os clássicos em paz e escrevam roteiros originais.
Roteiros originais? Bem, bem. Esta aí uma coisa que, em Hollywood, só acontece uma vez a cada dois ou três mil roteiros. E olhe lá.
Vi o trailer da nova versão d’Os três mosqueteiros. Apenas pelo trailer se nota que estamos diante de mais uma infâmia. Pra começo de conversa, D’Artagnan, como todo mundo hoje em dia, é ninja. O Japão devia processar Hollywood, antes que a cinebiografia da Madre Teresa de Calcutá a apresente como a santa do clã das adagas voadoras.
Nobel
Se a gente só lesse os ganhadores do Nobel de literatura, perderíamos os autores mais importantes e os mais divertidos desde que o prêmio foi criado. Quer dizer, o Nobel, que deixou essa grana preta pras artes e ciências por se sentir culpado por ter inventado a dinamite, agora carrega a culpa de endossar muita mediocridade e deixar na pobreza muita gente talentosa. Mas como o enredo da vida não tem lógica nenhuma mesmo, não há do que reclamar. O negócio é torcer pelos eventuais acertos.
Discutir
Como dizia o Millôr, uma discussão pode não levar à verdade, mas acaba com um monte de perguntas idiotas. Agora, tem muita gente que considera meio de mau gosto discutir. Pela minha experiência, os que preferem não discutir são os que desprezam as opiniões dos outros ou são muito apegados às próprias. Nem sempre esses dois tipos são a mesma pessoa.
Pecadilhos
Maluf diz que todo mundo tem seus pecadilhos. Sim, mas os meus não merecem cadeia.

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