Se a imprensa fizesse estardalhaço, a manchete de certo dia na Terra da Linguagem seria: TÁ LÁ O CORPO ESTENDIDO NO CHÃO. (Imagine o susto do João Bosco se visse tal jornal.) É que, como vem ocorrendo há milênios, nessa ocasião apareceu mais uma Língua Morta.
Do ponto de vista do linguajar, uma morte inesperada: estava bem falante e de repente, de um século para o outro, virara um som surdo num vale sem eco. Essa pobre Língua Morta (sim, pelos farrapos da sua fonética e a minguada morfologia, via-se que era sem recursos), estirada em meio à indiferente circulação da multidão de idiomas, parecia apenas uma vítima dos tempos modernos.
Foi recolhida pelos costumes, como se diz dos elementos que atrapalham o cotidiano. Com percepção apurada, alguém poderia notar indelével marca no espaço que ocupava – um silêncio profundo, coisa que nem se escuta mais. Que teria acontecido? Para surpresa de poliglotas que a tinham conhecimento quando ainda era expressiva, a necrópsia revelou sinais de violência.
Além de perfurações que causaram verborragia interna, um corte epistemológico atravessava o aparelho fonador. Tinham extirpado seus verbetes vitais. E não havia como saber quais suas últimas palavras. À Língua Morta faltavam interlocutores e nem intérpretes lhe davam atenção.
Mas os filólogos que a examinaram desconfiaram dos suspeitos de sempre: o Colonialismo, a Aculturação e até o Esquecimento. Todos com culpa no cartório, constavam nos dossiês de desaparecimentos linguísticos. Também as gangues de gírias, que maltratavam Línguas Clássicas, deixando-as impronunciáveis, deveriam depor. Só o Esperanto tinha álibi.
Era o caso de investigar a fundo. Talvez, pensaram os peritos, um detetive bom de papo conseguisse esclarecer o assassinato. O Idioma Inglês, que dominava a cena verbal, tinha acesso a Sherlock Holmes, Hercule Poirot e Nero Wolfe. Mas o ainda influente Idioma Francês sugeriu o Inspector Maigret.
Porém, o Idioma Italiano gesticulou mais alto: o Comissário Montalbano é afiado em dialetos, deixem o caso com ele. Montalbano, intuitivo e certeiro, logo interrogou o poderoso Capitalismo e sua nova mulher, a Globalização. Essa, insaciável, explorava sotaques em toda parte. Extravagante, mantinha valiosa coleção de sintaxes do passado.
Foi nesse museu que Montalbano descobriu a prova do crime: vestígios vocabulares da Língua Morta. E prendeu a culpada e seu óbvio cúmplice e amante, a quem chamava de Ispikinglix.
(Publicado originalmente no jornal Extra Classe, 5/10)
Se não fossem os esforços
do presidente Lula, diplomacia e gafe
ainda seriam coisas muito diferentes.
Recebo críticas por não reconhecer as oportunidades
que o Brasil oferece. Tá bem, admito:
aqui os charlatões são muito bem-sucedidos

Com o abandono das praças e parques
pelas prefeituras, dá pra dizer que estamos
no limiar de uma nova hera.
Depois do cartão de crédito e débito, vem aí
o cartão de descrédito. Para atender o mercado
de produtos, serviços e clientes desacreditados.
TUITADAS DA SEMANA
- As boas maneiras estão desse jeito porque são ensinadas da pior maneira.
- O que é o progresso: milhões de pessoas não lêem livros e agora, num salto tecnológico memorável, passarão a não ler e-books.
- O pessoal abaixo da linha da pobreza tem um consolo, mais abaixo: seu empobrecimento não é tão grave quanto o dos pobres de espírito.
- Curiosidade é o farejar dos neurônios.
- Planejamento familiar é essa íntima negligência noturna que resulta em prole.
- Como diria um derrotista: esse negócio de superação está completamente superado.
- Sei lá como definir a dimensão humana. Certamente não é com P, M, G.
- Nem cursos nem recursos. O que falta nas universidades brasileiras são faculdades mentais.
- Desenvolvimentistas falam em incrementar isso, incrementar aquilo, incrementar acolá. Ao fim, só conseguem excrementar.
- Tem quem ache embalagens a vácuo novidade. Não são. O crânio humano existe há uns 200 mil anos.
- As conexões estão ótimas. As conversas é que andam desconexas.
- Alugam tanto os ouvidos alheios que urge uma lei do inquilinato auditivo.
- Há poltronas que custam uma fortuna e travesseiros por ninharia. É: dão mais valor ao conforto do traseiro que ao descanso da cabeça.
- Ei, não vamos nos precipitar. O precipício ainda não se aprofundou.
- Como diria o impulsivo: a vingança é um prato que se atira quente no outro no restaurante.
- Ainda bem que os terráqueos não administram os espetáculos celestes. Já imaginaram o estrago nos arco-íris, poentes e noites de luar?
- Muita gente deduz pelo nariz: só tira conclusões quando enfia o dedo nele.
- Quem gosta de mulher-objeto é homem abjeto.
- Experiência acumula até um cúmulo; inexperiência já começa com um cúmulo e daí só desacumula.
- Quando alguém quebra o silêncio ruidosamente, voam cacos de decibéis pra todo lado, o que não ocorre quando é quebrado imperceptivelmente.
Certos candidatos embaralham tanto as ideias
que seriam facilmente eleitos como crupiês.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial